propriedade: Essência do Vinho
Logotipo Bluewine

Reportagens

DUORUM

ERA UMA VEZ dois enólogos lisboetas, dois amigos de infância que cresceram juntos, estudaram juntos e estagiaram juntos. Dois amigos que, apesar de seguirem a mesma profissão, prosseguiram caminhos autónomos, um rumo ao sul, outro rumo ao norte, caminhos independentes mas igualmente radiantes, trajectos pessoais que os conduziram aos lugares cimeiros da enologia nacional.

Dois amigos verdadeiros que, por uma das muitas ironias em que a vida é fértil, se juntaram mais tarde, na idade da razão, para estabelecer um projecto comum, num empreendimento ambicioso, grandioso e revolucionário. Uma história de epílogo feliz, uma narrativa em andamento, rabiscada numa das paisagens mais monumentais que o homem conhece, o Douro Superior.

Mas esta história começou bem antes, antes até de os dois protagonistas, João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco, terem nascido. Começou nas gerações anteriores, com os pais e avós de João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco, duas famílias que desde cedo cultivaram relações próximas, sociais e profissionais, numa antevisão do futuro. Por as duas famílias serem tão próximas, João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco cedo se conheceram, cedo travaram amizade, cedo frequentaram os mesmos círculos e circuitos. Por casualidade, o apelo da natureza foi comum aos dois, o apelo telúrico da terra, razão porque ambos se inscreveram no Instituto Superior de Agronomia. Depois do curso terminado seguiram os mesmos passos, mais uma vez, encontrando-se na Estação Vitivinícola Nacional de Dois Portos (EVNDP), no estágio final de curso. E é aqui que terminam os pontos comuns, os percursos paralelos, a proximidade física do dia-a-dia, a analogia entre carreiras. Apesar de ambos se poderem orgulhar de uma prestação ilustre, de um contributo mais que decisivo para a afirmação do vinho português, os percursos não poderiam ser mais divergentes.


OS TRILHOS DE PORTUGAL RAMOS

O destino de João Portugal Ramos estava talhado desde cedo. A Quinta de Chocapalha, na Estremadura, pertença da mãe de João Portugal Ramos, era o destino de uma vida. Na verdade, a vida profissional de João Portugal Ramos, percurso académico compreendido, foi orientado para essa realidade, para a administração de uma quinta da família, para um futuro em agronomia que lhe permitisse tirar proveito da terra familiar. Não fora a revolução de Abril de 1974, as convulsões da época que obrigaram à venda do património, e o mundo seria hoje diferente para João Portugal Ramos. Para todos os efeitos esperava-o uma vida estável na função pública, na EVNDP, articulada com uma vida paralela dedicada aos vinhos da Quinta da Chocapalha.

A primeira proposta de emprego chegou do sul, do seu amigo José Maria Almodôvar, filho do fundador da Adega Cooperativa da Vidigueira, um convite para comandar os destinos da cooperativa. As coisas correram bem e, pouco depois, já em 1986, recebeu os dois primeiros apelos para colaborar como enólogo consultor, convites endereçados pela Adega Cooperativa de Reguengos e pela Quinta do Carmo, à época ainda na posse de Júlio Bastos. A partir desta data o ritmo tornou-se frenético, num turbilhão quase incontrolável. Em 1987 surge um convite da Tapada de Chaves, em 1988 o convite da Adega Cooperativa de Portalegre, em 1989 o apelo para o primeiro projecto ribatejano no Casal Branco, em 1990 outro, em 1991 aqueloutro, num ritmo endiabrado e desatinado.

Foi a época de ouro das consultorias, quadra que formou uma nova leva de enólogos, muitos dos quais antigos e actuais colaboradores de João Portugal Ramos. Foi então que percebeu que não era este o caminho que ambicionava. Percebeu que o futuro obrigava a um caminho diferente e autónomo, como produtor independente. Percebeu que teria de alcançar a sua carta de alforria, na sua própria empresa, com e pelos seus vinhos. Não havia volta a dar! Começou com uma vinha de dez hectares plantada em redor da casa, em Estremoz, para rapidamente, mas de forma sustentada, aumentar a vinha para os actuais 230 hectares próprios… mais outros 250 hectares de vinha alugada. Isto, só no Alentejo. Porque ainda temos de contemplar a mega operação ribatejana da Falua, outra das suas apostas decisivas, outro dos seus triunfos enológicos e empresariais.


A CASA E O MESTRE DE JOSÉ MARIA

José Maria Soares Franco, por seu lado, tinha tomado uma opção oposta, rumando em direcção ao norte, em 1979, directo para uma das casas mais prestigiadas do país, a mítica Ferreirinha. Que melhor início de carreira poderia alguém desejar? Trabalhar numa casa histórica, junto de Fernando Nicolau de Almeida, mestre maior da enologia nacional, seria o sonho de qualquer enólogo recém encartado. Numa época onde o Vinho do Porto ainda era tema quase monopolista das atenções no Douro, José Maria Soares Franco encontrou-se perante verdadeiros mitos como o Barca Velha ou o Reserva Especial da Ferreirinha. Ganhou por isso uma sensibilidade especial pelos vinhos de mesa, percebendo desde cedo as exigências também especiais que estes vinhos reclamavam. José Maria Soares Franco trabalhou em todos os sectores da Ferreirinha, aprendeu muito, descobriu numerosos recantos do Douro, esquadrinhou o terreno, viveu as condicionantes e as alegrias de Gaia e do Douro de forma intensa e apaixonada. Durante dez anos conviveu diariamente com o mestre Fernando Nicolau de Almeida, de quem recebeu tantos ensinamentos, tantos conselhos, tantas lições. Lições de humildade e de humanidade, de apreço humano, de respeito pela natureza, de paixão e sensibilidade no lote, de rigor e precisão, de compreensão pelos caprichos da natureza, de deferência pelos humores do Douro. Descobriu o Douro e muitos dos seus segredos, mas embrenhou-se também em Gaia e na arte do lote, na consistência e fiabilidade do lote, na paciência e sensibilidade da sala de provas.

Em 1987 assumiu a direcção de enologia, assegurando a transição para o universo Sogrape, comandando durante quase 20 anos os destinos enológicos da maior empresa do sector. Assistiu e participou activamente na primeira revolução duriense dos anos 80, na renovação dos anos 90 e na consolidação do Douro do início deste milénio. Desenhou novas vinhas, renovou diversas adegas, redesenhou o mapa produtivo da Sogrape e, sobretudo, implantou a impressionante Quinta da Leda, esse projecto pioneiro e tão capital na estratégia da Sogrape, na indispensável renovação da produção e origem do Barca Velha. Com os resultados que todos conhecemos!


OS SENTIMENTOS DA UNIÃO

Apesar dos caminhos profissionais separados, um a norte outro a sul, apesar da disparidade entre opções profissionais, um como responsável máximo de enologia da maior empresa de vinhos portuguesa, outro num projecto empresarial pessoal, a verdade é que João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco nunca perderam o contacto nem a estima pessoal. Sempre se admiraram mutuamente, prezando e aplaudindo a carreira e as opções pessoais do outro. As duas famílias sempre mantiveram convivência próxima, relações de amizade franca, frequentando os mesmos destinos, os mesmos locais de férias, as mesmas praias. E foi mesmo numa dessas praias, na Praia Grande, em Sintra, que se deu o reencontro que viria a transformar a vida de João Portugal Ramos, de José Maria Soares Franco… e do Douro.

Por mais um acaso do destino, um dos muitos que caracterizam esta saga, por fundamentos díspares, e sem o saberem, João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco encontravam-se perto de um momento de ruptura. Há muito que João Portugal Ramos conhecia a cruel realidade do mercado. Exportar era uma inevitabilidade, uma necessidade absoluta. Apesar de João Portugal Ramos estar ciente do peso do nome Alentejo, da sua transcendência nacional, também sabia que o Douro se transformou na referência internacional de Portugal. Como homem prático e directo que é, sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, teria de entrar no Douro. Queria ir para o Douro por gostar dos vinhos mas também, e sobretudo, por necessidade. Precisava do Douro para poder complementar a sua oferta, para ganhar espaço e visibilidade em mercados onde o nome Alentejo desperta menos entusiasmo e reconhecimento.
Entretanto, José Maria Soares Franco encontrava-se numa encruzilhada espinhosa da vida, naquele instante onde as grandes decisões têm de ser ultimadas, no momento da verdade, no instante em que decidimos o futuro. Como todo e qualquer enólogo, José Maria Soares Franco também ambicionava ter o seu vinho, o fruto do seu trabalho, o produto vivo das suas convicções pessoais, da sua sensibilidade artística, da sua interpretação da natureza. Se o sentimento e o desejo sempre viveram confinados ao seu coração, este era o momento decisivo. Era agora ou nunca.

Sabia que se se deixasse seduzir pela estabilidade de sempre, pela segurança de trabalhar para terceiros, mais tarde não teria coragem nem energia para começar do zero. Queria lançar-se na grande aventura do Douro, mas ainda não sabia como… nem com quem! Foi pois num desses jantares na Praia Grande que, por casualidade, numa conversa aberta entre dois amigos de longa data, confessaram mutuamente as suas angústias e expectativas, os temores e as esperanças, os sonhos e as desilusões, falando de tudo e de nada. Subitamente, perceberam que falavam do mesmo, que os sentimentos eram coincidentes, que havia espaço e fundamentos para prolongar a conversa. A princípio timidamente, depois mais seriamente e, finalmente, com muito mais intensidade e detalhes, os encontros foram-se sucedendo, numa confluência de interesses e expectativas que, um ano mais tarde, redundaram no projecto Duorum. Aqui chegados, depois de assomados a um bom porto de entendimento, depois de tomadas as decisões capitais, as coisas começaram a avançar muito, muito rapidamente. Tão, mas tão rapidamente que, ainda hoje ao visitar a Quinta de Castelo Melhor, no Douro Superior, tudo parece um milagre.

Porém, não foi fácil chegar aqui. Tiveram de esquadrinhar a região por inteiro, de queimar os olhos a consultar tantas cartas militares, de perder horas infinitas em visitas a locais ermos, em centenas de visitas infrutíferas para, finalmente, se decidirem por um lugar muito especial, o tal pedaço de terra que tanto ambicionavam.


A TERRA SONHADA

A experiência de José Maria Soares Franco, o seu conhecimento do Douro, foram decisivos nesta verdadeira quimera. João Portugal Ramos, homem experiente e perspicaz, deixou todo o protagonismo para José Maria Soares Franco, entregando-lhe a liderança integral do projecto duriense. A confiança entre os dois é total, sincera, numa cumplicidade que se adivinha a milhas.

Por conhecer tão bem o Douro, por ter investido tanto e tantas horas no Douro Superior, José Maria Soares Franco sabia bem que esta era a região certa para investir, o local de eleição para fundar o projecto Duorum. Agradava-lhe a ideia da consistência superior da sub-região, a constância climática, o isolamento, o lado selvagem ainda tão visível e tão presente, os solos virgens, a paisagem pronta a ser redesenhada pelo homem. Mesmo assim, encontrar o poiso certo não foi empreitada fácil. Quando finalmente descobriram o sítio ideal, o troço certo no Douro Superior, começou o inferno das putativas escrituras, a tortura das 105 promessas de compra que tiveram de deslindar. Por mais que um momento o negócio esteve em risco de fenecer.

Tanto que, assumindo o fracasso mais que certo das negociações, lançaram-se à procura de um lugar alternativo, uma nova resposta para o projecto Duorum. Encontraram-na nas margens do rio Côa, mesmo junto à foz do rio, numa quinta confinante à Ervamoira, no Monte do Farizeu, santuário de muitas das principais gravuras rupestres do Côa. Só que, em mais uma reviravolta do destino, o negócio da quinta original, a Quinta de Castelo Melhor, desanuviou-se, avançando de forma desenvolta. Acabaram por ficar com as duas quintas, o Monte do Farizeu, ainda em pousio, sem actividade agrícola, terra virgem de reserva para um futuro empreendimento. Castelo Melhor tornou-se na sede da empresa, no coração do Duorum, na residência de trabalho de João Perry Vidal e José Luís Moreira da Silva, os dois homens que gerem o quotidiano de Castelo Melhor. João Perry Vidal, colaborador antigo da equipa de João Portugal Ramos, responsável pelos extraordinários vinhos da Quinta de Foz de Arouce, assegura a viticultura, o difícil litígio com os solos xistosos, a tarefa hercúlea de levantar uma vinha em solos tão crus e agrestes. José Luís Moreira da Silva é o responsável directo pela enologia, pela condução dos vinhos, pelo trabalho ininterrupto na adega.

Compraram 160 hectares de terra virgem, junto ao rio, cumprindo os três requisitos primordiais que José Maria Soares Franco tinha matriculado no caderno de encargos. Frente de rio, pela indispensabilidade da rega; encostas escarpadas, para as maturações mais pronunciadas; e, para o Vinho do Porto, cotas altas e planas para a frescura, para os equilíbrios perfeitos entre açúcar e acidez. E é isto que a Quinta de Castelo Melhor oferece, na paisagem agreste do Douro Superior, perto de Foz Côa, num pedaço do Douro que ainda é virgem e descaradamente selvagem. Estamos na região mais seca de Portugal, uma das mais quentes, com horas e mais horas de excelente exposição solar, uma faixa árida e pedregosa onde nada pode crescer para além da vinha e do olival.

Compraram terra virgem, com dois ou três olivais murados, as “tapadinhas”, terra onde gastaram fortunas nas surribas, na plantação de uns quantos hectares de vinhas.

Por ora têm três parcelas plantadas, ainda necessariamente imberbes, divididas entre os três, seis e os dez hectares. Por todo o lado se percebe uma actividade frenética. Quilómetros e mais quilómetros de estradas rasgadas, quilómetros e mais quilómetros de condutas de água para a rega, quilómetros de fios eléctricos, centenas de patamares, num esforço titânico para retalhar a terra. Mas, apesar de tanta estrada, tanto cabo eléctrico, tantas condutas de água, nada se avista para além do xisto. Nem o enorme depósito de água com capacidade para 500 mil litros, construído lá bem no alto, perto da futura casa de apoio, se descobre na paisagem. Com uma preocupação estética sobre-humana, tudo foi enterrado, camuflado, encoberto pelo xisto, sem ferir a paisagem que aparece impoluta. Notável!

Claro, as vinhas, de tão jovens, ainda demorarão a entrar em produção. Por isso arrendaram 60 hectares de vinhas de altitude, num planalto próximo, vinhas velhas que se situam a cotas bem elevadas. Arrendaram outros 11 hectares, também de vinhas velhas, vinhas de encosta, confinantes com Castelo Melhor. Mas José Maria Soares Franco conhece bem as manigâncias do Douro, as limitações do Douro Superior, as compensações do lote. Por isso celebraram contratos de compra com 20 lavradores do Cima Corgo, de onde retiram uvas para fortalecer o lote, numa busca eterna por complexidade e frescura. É também no Cima Corgo que, por ora, se situa a adega. Os planos para a adega do Douro Superior já estão traçados, aguardando apenas as necessárias autorizações.

As bases estão traçadas, os planos são meticulosos, o futuro aparece brilhante. Por ora só existe o Duorum Colheita 2007, embora o Reserva do mesmo ano esteja pronto a ser lançado. As colheitas de 2008, que tive ocasião de poder provar antes do lote final, confirmam o que o ano 2007 já tinha prometido. Os vinhos são diferentes do perfil costumeiro do Douro, mais práticos, mais acessíveis e amáveis, muito finos e elegantes, surpreendentemente frescos e sedosos. São vinhos bem diferentes… mas essa é uma das enormes vantagens do projecto Duorum, oferecer uma visão alternativa do Douro Superior.

Estou seguro, é certo que aqui ainda vai nascer um dos grandes do Douro. É só saber esperar…

Texto: RUI FALCÃO
Fotos: GIUDITTA BUSSETTI
Wine 37

(+) Reportagens
design@wallpaper.pt