propriedade: Essência do Vinho
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Reportagens

Na Terra-Mãe do Alvarinho

É UMA das raras castas portuguesas conhecidas pelo nome, facilmente identificável com uma região, associada a uma imagem de prestígio e valor. Num país acostumado a valorizar as regiões em detrimento das castas, habituado ao lote em prejuízo dos vinhos estremes, são poucas as variedades que beneficiam de tal reconhecimento, de tal imagem, de tal alegoria de excelência. Pedimos um Alvarinho pelo nome, sem nunca referir a sub-região de origem. Por vezes, pedimos um Alvarinho como se não se tratasse de um Vinho Verde, como se a casta o colocasse automaticamente num mundo separado, num patamar distinto, num estatuto diferenciado. Esquecemo-nos regularmente que a casta é transfronteiriça, mudando de nome na extremidade norte, vendida fora de portas sob o apelido galego de Albariño. Ignoramos que o Alvarinho, ou melhor, o Albariño, é a nova casta coqueluche internacional, considerada como uma das mais promissoras, a aposta decidida de novos países produtores como os Estados Unidos, Nova Zelândia e, sobretudo, a Austrália.

Esquecemo-nos convenientemente que o Alvarinho é uma das castas que mais viaja dentro de fronteiras, num caminho imparável rumo ao centro e sul, com paragens asseguradas em quase todas as denominações portuguesas. Por ora, embora já existam, ainda são poucos os vinhos estremes da variedade fora do seu Minho natural… mas esse número irá crescer expo nen cialmente num futuro muito próximo.

É pois na sub-região de Mon ção e Melgaço que nascem, tradicionalmente, os Alvarinho nacionais. Durante anos, a subregião viveu governada por Monção, o concelho mais dinâmico e diligente, o único de que se conheciam os vinhos. Hoje, Melgaço vangloria-se de possuir mais produtores que Monção, numa disputa de orgulho regional que poderá parecer estranha a quem assiste de fora. Regionalismos aparte, os dois concelhos patenteiam geologias diferentes, com mais calhau rolado em Monção, solos mais graníticos em Melgaço, com vinhos mais florais e exuberantes em Monção, mais minerais e austeros em Melgaço. Não foi por acaso que o Alvarinho nasceu e se desenvolveu nesta sub-região, nestes dois concelhos. Um pequeno passeio com destino a Monção e Melgaço, vindo de Valença, é suficiente para perceber as razões de ser da sub-região, os fundamentos para a existência do Alvarinho. Os dois concelhos mantêm-se protegidos dos ventos marítimos por fragas e serranias, num caldeirão natural que os cerca de norte a sul, de este a oeste. Monção e Melgaço, apesar da curta distância em linha recta ao oceano, são dois concelhos do interior, soalheiros, defendidos naturalmente pela graça da natureza, refrescados diariamente pelo curso do rio Minho. As vinhas, essas variam entre os 80 e os 300 e poucos metros, num anfiteatro natural de rara beleza, protegido pelos quatro cantos.

Porém, pretender manter a propriedade de uma casta, a paternidade e o uso exclusivo do nome Alvarinho, é uma empreitada inglória, destinada a um fracasso anunciado. A disseminação do Alvarinho, dentro e fora de fronteiras, região do Vinho Verde incluída, é um processo irreversível, obrigando ao repensar de estratégias. Valença, por exemplo, terra anteriormente desamparada do nome Alvarinho, ganha uma nova centralidade com a che ga da de novos produtores… enfarpelados na designação “Regional Minho”. E outras zonas surgirão em breve para desafiar a hegemonia de Monção e Melgaço, num movimento que se antevê imparável.

Resta aos muitos produtores desta sub-região marcar a diferença, apostar na qualidade e diferença, na autenticidade de uma região, na entrega de vinhos incomparáveis e inimitáveis. Esta reportagem, dedicada por inteiro ao Alvarinho, ambiciona mos trar as muitas facetas e semblantes que o Alvarinho pode to mar. Enunciamos seis produtores, seis produtores distintos, diferentes entre si, discrepantes nos objectivos, na personalidade, na disponibilidade económica, na experiência acumulada, na dimensão da propriedade e no estilo dos vinhos. Todos singulares e encan tadores no trato, todos desejosos de fazer o melhor Alvarinho, todos envolvidos até à medula nos mistérios do Alvarinho. Seis formas de encarar o vinho, seis posturas pessoais, seis interpretações únicas daquela que é uma das melhores castas brancas nacionais.


QUINTA DO REGUEIRO {Uma década de afirmação}

O DESTINO prega-nos partidas, pequenos imprevistos que podem mudar uma vida para sempre. E nem sempre somos senhores do destino, nem sempre partimos com um projecto arquitectado aos pequenos detalhes, nem sempre prevemos o desfecho quando nos lançamos na dura empreitada da vida. Por vezes, as causas correm muito melhor que o antecipado, muito acima do expectável, fruto do trabalho árduo… e dos acasos do destino. Foi esse o fado da Quinta do Regueiro, nascida por força das circunstâncias, mas condecorada, recompensada e aclamada, logo com o primeiro vinho produzido! Nasceu por constrangimento e necessidade, pela dificuldade em entregar à Adega Cooperativa de Melgaço o fruto do seu pequeno hectare de Alvarinho, as suas preciosas uvas, o remate de um ano de sacrifícios. No ano de 1999, por necessidade e imposição, soltaram o grito de Ipiranga, a carta de alforria, lançando-se na ventura e aventura de fazer vinho próprio.

Uma década de existência é tempo mais que suficiente para fazer o primeiro balanço de vida… e que balanço! Seria difícil fazer melhor em tão pouco tempo. O bom senso sempre foi uma constante da casa, o processo de crescimento foi gerido com pés e cabeça, sem pressa nem desvarios, assente na filosofia tão prática, mas de tão difícil prática, de não dar um passo maior que a perna. Foi assim que, passo a passo, a Quinta do Regueiro cresceu, melhorou, investiu na vinha, investiu na adega, voltou a investir na vinha, num crescimento compassado, ritmado e seguro. Cresceun mostrando vinhos elegantes, florais e frutados, Alvarinhos seguros e vibrantes, vinhos pejados de carácter e personalidade, vinhos que não tardaram a ganhar o respeito da imprensa especializada.

Desventuradamente, e apesar da excelência, apesar das boas críticas genera lizadas, apesar do reconhecimento da imprensa e crítica, apesar do respeito dos pares, sinto que os vinhos Alvarinho da Quinta do Regueiro permanecem misteriosos e desconhecidos para o grande público. Infelizmente, porque são poucos os Alvarinhos que conseguem demonstrar de forma tão transparente aquela que é uma das maiores virtudes de Melgaço, a limpidez aromática e a mineralidade pungente.

Tive ocasião, nesta visita, de poder provar todos os Quinta do Regueiro existentes, numa prova vertical alargada que se prolongou por uma década de Alvarinhos. Ao reler os meus apontamentos de prova não pude deixar de reparar que as palavras “mineralidade”, “austeridade” e “fruta” compareciam em quase todos os descritivos, de 1999 a 2008, de anos quentes a anos frios, de anos soalheiros a anos chuvosos, de colheitas antigas a colheitas recentes. Porém, e não consigo deixar de o referir, também senti que nas duas últimas vindimas, 2007 e 2008, a intensidade de açúcar residual aumentou, quebrando alguma da pureza e encanto das primeiras colheitas.

Tudo começou então em 1999, com apenas um hectare de Alvarinho, de vinhas plantadas em 1986, pertença antiga da família. O começo foi hesitante, quase experimental, a meio caminho entre a loucura da aventura num mundo desconhecido e a segurança da entrega de uvas a terceiros. No primeiro ano saíram apenas 4.000 garrafas, uma produção caseira, sem grandes expectativas, sem saber o que esperar. Surpresa das surpresas, e para espanto geral, o primeiro Quinta do Regueiro recebeu a medalha de ouro do melhor vinho Alvarinho de 1999. Não poderiam desejar melhor começo! Se ainda subsistissem dúvidas sobre a validade da decisão, este prémio precoce encarregou-se de amainar os temores, incentivando-os a avançar para a implantação e desenvolvimento da uma marca.

Paulo Cerdeira Rodrigues assumiu a Quinta do Regueiro como projecto pessoal, como vocação suprema, condicionando a sua vida à vinha e ao vinho. É fácil perceber a paixão que lhe corre nas veias, a vontade de fazer melhor, de querer sempre mais e melhor. Bastariam cinco minutos de cavaqueira e passeio pelas vinhas para perceber o sentimento e amor que lhe vai na alma.

Abraçou a causa como poucos, bebendo informação e ensinamentos de muitos, num misto muito particular de rigor e inspiração que, aparentemente, lhe oferece resultados ímpares. A vinha, de produção biológica, é tratada com todos os mimos e atenções, com o cuidado de quem chega ao rigor de pesar ao grama as pequenas correcções naturais que a agricultura biológica permite. Ao falar com Paulo Rodrigues percebe-se uma autenticidade desconcertante, uma genuinidade e transparência únicas que são facilmente transmitidas ao vinho.

Hoje são seis hectares de vinha, três próprias e três alugadas, todas vizinhas à adega, dispostas em socalcos naturais, espraiando-se pela encosta a diferentes altitudes. Vizinhas de uma adega recente, moderna e funcional, apropriadamente equipada com uma colecção de pequenas cubas, pequeníssimas cubas de inox que variam entre os minimalistas 1.500 litros e os exíguos 4.500 litros! Ferramentas ideais para a experimentação, para os ensaios, para a vinificação diferenciada de cada parcela. Para o fim ficam dois vinhos interessantes, um espumante 100% Alvarinho de bom-tom e o Grande Escolha, um vinho sério e profundo, cheio e poderoso, fechado em garrafa borgonhesa, como que a mostrar a singularidade da expressão.
É fácil prever um futuro radiante para a Quinta do Regueiro!


REGUENGO DE MELGAÇO {O mérito da persistência}

A PAISAGEM ENVOLVENTE é lindíssima, encaixada entre o rio Minho e as termas de Melgaço, a escassos metros da frente do rio, a pouco mais de um quilómetro de Melgaço, num ambiente bucólico de rara beleza. Apesar da proximidade física com a estrada nacional que liga Monção a Melgaço, aqui respira-se paz e tranquilidade, numa atmosfera privilegiada de sossego e requinte… ou não estivéssemos nós num dos hotéis rurais mais sedutores de Portugal. Estamos no Reguengo de Melgaço, casa de granito sólido, paço nobre com origens no século XVI transformado em hotel de charme e produtor de vinho, oferecendo um dos Alvarinhos mais expressivos, emotivos e efusivos da sub-região de Monção e Melgaço. O mandato começou com Má rio Cardadeiro, o homem do leme, o patriarca da família, o homem que vive o dia-a-dia de Reguengo de Melgaço com fervor, com o orgulho natural de quem sente obra feita, de quem subiu na vida a pulso, de quem edificou um património vasto vindo de origens modestas. Natural de Cantanhede, passou por Melgaço a caminho da emigração anunciada, num entretém de tempo entre jornadas programadas. Gostou tanto que acabou por ficar… para sempre! O trabalho nunca o assustou, nem lhe faltou, e cedo descobriu que se sentiria muito mais em casa em Melgaço do que em Paris.

Mário Cardadeiro fez pela vida, aventurou-se em negócios, e, em pouco tempo, descobriu uma apetência natural pela construção civil, pela comercialização de materiais para a construção civil. Em poucos anos converteu-se num dos maiores empresários do ramo em Portugal, num crescimento galopante, quase exponencial. Antes de chegar ao cume suspeitou que o futuro não morava ali, que aquele era um mundo em queda, desfazendo-se de todos os activos. Fundou então uma empresa de transportes rodoviários, de camionagem, primeiro assente em pequenas ajudas familiares, depois crescendo para uma dimensão quase surreal, com um património actual de mais de 130 camiões.

Os dois filhos juntaram-se ao negócio, assumindo a gestão corrente, oferecendo, pela primeira vez, tempo e disponibilidade a Mário Cardadeiro para se dedicar de alma e coração a outros projectos de vida. Um dia, voltava ele de uma viagem de negócios ao sul, quando se apercebeu de um cartaz à porta do Reguengo de Melgaço a anunciar a venda. Falou para o promotor, seu amigo, e em poucos minutos apalavrou o negócio. Claro, depois “só” teve de convencer a quase meia centena de herdeiros a vender a sua parte, entre descendentes por todo o Portugal, Brasil e França. Comprou uma casa senhorial em ruínas, consumida pelo fogo, património protegido mas abandonado, num estado deplorável de conservação, acompanhado por dez hectares de terra, à época sem serventia agrícola. Recuperar a casa e plantar uma vinha passaram a ser a sua obsessão, o seu escape, a sua actividade principal.

Como não poderia deixar de ser em Portugal, a recuperação custou muito mais que o previsto, demorou muito mais que o programado, e implicou uma contenda diária contra os muitos institutos que superintendem o património português. Programar e construir a adega revelou-se outra obra quixotesca e faraónica. Se nos primeiros anos a adega ainda conseguiu sobreviver na actual loja, num pequeno e rústico anexo da casa, cedo deixou de ser funcional. Mas, por ser património histórico protegido, a construção da adega foi-lhe negada durante anos, embrulhada em eternas divergências entre os muitos departamentos e organismos centrais do estado. Em 2005, finalmente, outorgaram-lhe as necessárias licenças para construir uma adega escavada na rocha, um desaterro e terraplenagem que encareceram a obra para valores incalculáveis. A vinha, plantada em 1996, ocupa nove hectares de mancha contígua, um paradoxo em Melgaço, um latifúndio em terras minhotas! A comandar a enologia está Abel Codesso, natural de Melgaço, enólogo das Adegas Laxas na Galiza, homem experiente e conhecedor que conduz o futuro da casa com mão inteligente e segura. A sua vasta experiência galega, numa adega de volume considerável, num estilo mais amável e tranquilo da casta, deu-lhe mundo, uma visão mais internacional e mais cosmopolita do Alvarinho e das suas necessidades. Uma ventura para o projecto audacioso de Mário Cardadeiro!

Tive oportunidade de poder realizar uma prova vertical de todos os Alvarinho Reguengo de Melgaço, desde a colheita inicial de 2001, conjuntura excepcional para compreender o estilo da casa, a filosofia de trabalho e a longevidade dos Alvarinhos. Dizer que os Reguengo de Melgaço são vinhos de nariz inebriante, expressivo, eloquente e veemente é uma verdade de La Palice. Por vezes surgem mais exuberantes e entusiastas, por vezes mais contidos no temperamento extrovertido, com vinhos mais compassados e serenos … mas sempre irrequietos e envolventes. A fruta exótica, tropical e muito floral, acompanhada por um fundo mineral, está omnipresente. E sim, o açúcar residual também se encontra sempre presente, tal como a acidez surge mais temperada que o tradicional, mais suave e amaciada, ao estilo dos Alvarinhos vizinhos das Rias Baixas…


DONA PATERNA {Ousar a diferença}

DONA PATERNA é uma das marcas pioneiras de Melgaço, um dos bravos do pelotão, um dos raros que encontrou coragem para criar cedo um Alvarinho em Melgaço, numa quadra onde Monção parecia ter o exclusivo da casta na sub-região. A comandar os destinos da Dona Paterna, figura histórica da região, surge Carlos Codesso, um homem generoso e voluntarista, um homem da terra que vive rodeado pelas vinhas, a meio caminho entre dois mundos, o universo do alumínio e a vinha. Como quase todos os que se abalançaram prontamente nestas andanças da vida, começou por entregar as uvas na Adega Cooperativa de Monção, essa instituição tão marcante e importante para a região.

A primeira vinha tinha assomado já em 1974, ano da revolução, altura em que apostou numa pequena vinha de Alvarinho, a segunda a ser implantada no concelho de Melgaço. Em 1976 entregou as primeiras uvas na Adega de Monção, tarefa que cumpriu escrupulosamente até ao ano de 1988. Não se deu mal com a vida de viticultor, mas ansiava por mais, por um desafio maior, pelo orgulho de ter um vinho próprio, pela dignidade de ver o seu nome num rótulo. Carlos Codesso confessa espontânea e instintivamente que é um homem da aldeia, um homem do campo, um homem preso à terra, às suas raízes. Apesar de ter andado pelo Porto, de ter feito carreira profissional, o apego do campo, a magia de Melgaço, a tranquilidade da vida rural foram mais fortes, numa atracção magnética que o tempo confirmou. Foi assim que, em 1989, decidiu engarrafar o primeiro vinho, um projecto arrojado e temerário, um projecto que o fez desertar do conforto da segurança do rendimento certo para a audácia de fazer um vinho desconhecido. Foi o segundo em Melgaço a arriscar a fortuna num vinho Alvarinho, numa época onde os produtores de Monção brilhavam, numa era onde mal se sabia que o concelho de Melgaço também produzia uvas Alvarinho. Foi preciso coragem… coisa que nunca faltou a Carlos Codesso. Ousadia que se repetiu quando, com as primeiras vendas, foi comprando pequenas parcelas avulsas, terrenos deserdados e dispersos, pequenas manchas sem vinhas, terras que lhe aumentaram o pecúlio em área, fazendas que foram sendo cobertas de vinhas.

Hoje, 20 anos passados, soma perto de 17 hectares de vinha, uma enormidade para a região, um latifúndio para a dimensão média da propriedade em Melgaço. Em produção encontram-se apenas dez hectares, divididos por múltiplas parcelas. Outros quatro hectares juntam-se ao lote em reconversão, vinhas ainda imberbes, demasiado jovens para poderem contribuir para o Dona Paterna. Finalmente, adquiriu ainda cerca de três hectares para plantar, à espera de luz verde para que o investimento se concretize.

Como os rendimentos são relativamente baixos, apesar dos solos férteis onde as vinhas estão implantadas, a produção raramente ultrapassa as 70.000 garrafas… nos anos mais favoráveis. Por ter as vinhas dispersas por 17 parcelas, perto e longe da adega, em altitudes que variam entre os 100 e os 220 metros, Carlos Codesso tem muito por onde escolher. A confirmar as diferenças de “terroir”, de exposição e altitude, de clone e de solo, para o Dona Paterna consegue-se vindimar a casta Alvarinho a 12º e a 15º de álcool, com muita e pouca acidez, com fruta mais tropical e expressão mais mineral, com maior ou menor eloquência aromática. Carlos Codesso, escudado pelo seu enólogo de sempre, o sereno e notável Fernando Moura, homem de provas dadas e mérito reconhecido, subscreve ideias bem claras sobre o perfil de vinhos mais ajustado à casta, uma visão pessoal que aponta para vinhos secos e austeros, de acidez fixa firme, vinhos intensos e tensos. Apesar da singeleza de meios gosta de trabalhar as massas com choques térmicos razoáveis, sempre a baixas temperaturas, com rigor e contenção. A adega, funcional e generosa na dimensão, revela bem o estilo e personalidade de Carlos Codesso, num aproveitamento do espaço entre o racional e o desalinhado. Carlos Codesso afirma, com uma sinceridade atordoante, que gosta de experimentar, de ensaiar coisas novas, de meter as mãos na massa, de aprender com os erros, de empreender novos caminhos sem o inconveniente dos dogmas. É um autodidacta e sente-se confortável nessa postura, ancorado e amparado pela competência profissional de Fernando Moura. Tem conduzido inúmeras experiências com madeiras, estágios diversos e madeiras diferentes sem, por ora, ter encontrado a fórmula mágica que lhe agrade, o preceito que lhe ofereça um equilíbrio justo entre a frescura do Alvarinho e a complexidade aportada pela madeira.

Ideias para ensaios não faltam! Haja tempo e condições financeiras para tal e Dona Paterna continuará na senda da experimentação, num retrato perfeita do espírito inquieto de Carlos Codesso. Os vinhos, esses são fáceis de identificar pela personalidade séria, pela franqueza de carácter, pela austeridade e intensidade, pela sinceridade com que exprimem a fruta das vinhas.


ALVAIANAS {O literal vinho de garagem}

QUANDO José António Alves Rodrigues sugeriu que nos encontrássemos no coração do centro urbano de Melgaço, numa rotunda central, assumi que seria por facilidade de localização, por comodismo, por simpatia para com os forasteiros de Lisboa que teriam dificuldade em encontrar uma adega perdida no meio do campo. Não poderia estar mais enganado… e nada me poderia preparar para a surpresa que me estava reservada! Afinal, depois das apresentações feitas, do carro estacionado, da primeira breve troca de palavras, descobri uma adega urbana, uma adega de garagem, uma das poucas adegas nacionais a fazer justiça ao nome Vinho de Garagem. Sim, é verdade, os vinhos Alvaianas são mesmo feitos em Melgaço, no centro de Melgaço, numa garagem urbana, numa garagem de um edifício. Ou melhor, num conjunto de três garagens vizinhas, em três edifícios distintos, duas das quais contíguas, a terceira estrategicamente posicionada do outro lado da rua. Uma rua íngreme e pacata, quase sem trânsito, qualidades indispensáveis para o sucesso da operação.

A história é curiosa e surpreendente, algo exótica, num misto de azar e fortuna, num retrato fidedigno dos dramas e conquistas do dia-a-dia de produtor. José António Alves Rodrigues sempre demonstrou um interesse particular pelo campo, pela vinha e pelo vinho. Apesar da vivência urbana em Melgaço, sempre quis fazer vinho, lançar uma vinha, viver na natureza e junto da terra. Em 1988 pediu a primeira licença para plantar uma vinha, pedido que lhe foi denegado durante oito anos, até à anuência final em 1996. A longa espera não o demoveu. Começou com um hectare de vinha, exclusivamente Alvarinho, em terra própria entretanto adquirida. Terra linda e deslumbrante, numa paisagem serena e soalheira, num pequeno recanto de Portugal ainda preservado e imaculado. Um pedaço de céu sito no ponto mais a norte de Portugal, nas extremas setentrionais do país, duplamente protegida dos efeitos dos ventos oceânicos pelas serranias, um caldeirão soalheiro e agasalhado que lhe acaricia as vinhas plantadas com Alvarinho… e só Alvarinho.

A primeira vindima determinou também as primeiras dificuldades. A Adega de Monção não pode aceitar as uvas e os poucos produtores que lhe compraram uva, socorrendo-se da velha prédica nacional, atrasaram os pagamentos… isto claro, quando pagavam de todo! Desgraça por desgraça preferiu a fuga para a frente, contraindo um empréstimo junto da banca, correndo o risco de criar uma marca, de não ficar dependente de boas vontades alheias. Comprou três cubas e aproveitou o espaço físico das garagens vizinhas, arrendadas pela pequena loja dos seus pais, para fazer uma minúscula adega improvisada. Do nada, pressionado pela necessidade, forçado pelo risco de ruína, criou um vinho Alvarinho, em condições quase extravagantes. A colheita 2001, a primeira a ostentar o nome Alvaianas, representou o primeiro engarrafamento real, o primeiro vinho da casa, o filho primogénito da sua pequena quinta. Na adega, por ora a mesma adega, faz tudo de forma artesanal, sem recurso a terceiros, aproveitando o declive acentuado da rua para trabalhar as massas com o recurso da gravidade. Até o engarrafamento e rotulagem são feitos em casa, de forma relativamente artesanal, de novo com o expediente das leis da gravidade. Estende uma mangueira a emparceirar as garagens sitas nos dois lados da rua, apartadas entre si por uma dezena de metros e, com a ajuda do declive e de um par de amigos a desviar o pouco trânsito eventual, o vinho flui das cubas sitas num lado da estrada para a máquina engarrafadora assente no outro lado da estrada! Faz-se tudo de forma artesanal. Até a espumantização é feita e terminada em casa, sem recurso parceiros ou consultorias, numa manifestação suprema de autonomia e liberdade que são tão caras a José António Alves Rodrigues.

Por ter as vinhas num local tão ermo e soalheiro, tão protegido dos ventos húmidos, o grau alcoólico nunca foi um problema. Ou melhor, acabou por compor um problema sério mas pelo excesso de graduação, pelo constante ultrapassar dos 13º da lei, pela continuada transposição do tecto máximo alcoólico, segundo as regras vigentes na legislação regional. Por isso os seus vinhos foram invariável, e necessariamente, certificados como Vinho Regional, por ultrapassarem os limites legais consagrados na lei.

O recente aumento do termo máximo alcoólico para os 14º, permitiu aos Alvaianas voltar a estampar o selo Vinho Verde. Hoje são já quatro hectares de vinha disponível, três dos quais de vinha própria, um hectare recentemente plantado, e uma segunda parcela de um hectare alugada. O respeito pela terra levou-o cedo para os caminhos da agricultura biológica, preceito que segue à risca e com convicção. Tanto que este ano, pela primeira vez, vai lançar um lote reduzido de garrafas de um vinho novo, o Quinta das Alvaianas biológico, a locução mais autêntica do seu “terroir” e das suas convicções. Para breve, dependente apenas das aprovações legais e dos encargos financeiros, está a construção de uma nova adega, passo essencial para o futuro da casa.


ROLAN {O Alto Minho de um galego}

VITOR ROLAN é um homem de convicções fortes, um homem com um percurso de vida notável, um empresário galego que, do nada, construiu um império imobiliário. Sem nunca o afirmar de forma explícita, percebe-se que Vitor Rolán vive a vida sustentado no lema de que na vida não existem tarefas impossíveis. Aos 14 anos, com o dinheiro ganho durante quatro meses de pesca, fundou a sua primeira empresa, um negócio de madeiras, de compra e venda de madeiras para abate. A fortuna sorriu-lhe e dos lucrativos negócios da madeira progrediu para o imobiliário, ainda hoje o tema central dos seus negócios. Cedo diversificou os seus interesses para este lado da fronteira, movendo-se com facilidade entre a Galiza e o Minho, estabelecendo operações dos dois lados da fronteira.

Em Espanha, nas Rias Baixas, do outro lado do rio Minho, tem quase 30 hectares de vinha, quase tudo Alvarinho, aqui e ali temperados por pequenas bolsas de Trajadura e Caiño Branco. Desde cedo percebeu o gozo do vinho, num misto de simpatia pelo potencial do negócio e pelo simples prazer da criação de um vinho. Porém não se aventurou a fazer vinho na Galiza, onde permanece simplesmente como viticultor, vendendo a uva para terceiros, sem fazer vinho, sem transformar as uvas, sem investir numa marca. Apesar de rentável, e de continuamente expandir a área de vinha galega, sempre sentiu que o Minho oferecia um potencial superior para fazer vinho.

Vitor Rolán, sem papas na língua, frontal e incisivo como poucos, garante não perceber a lógica nacional de concentrar o nome Alvarinho nos concelhos de Monção e Melgaço. Segundo Vitor Rolán, o melhor Albariño das Rias Baixas nasce precisamente das vinhas que ladeiam o Rio Minho, na estreita faixa transfronteiriça que acompanha o curso do rio. Ora se na Galiza esta é a melhor região para o Alvarinho, e se o lado português da fronteira oferece melhor clima, melhor exposição, melhores condições naturais para edificar bons vinhos Alvarinho, porque não fazê-lo nos concelhos de Valença e Vila Nova de Cerveira? Para Vitor Rolán estas premissas são tão lógicas e imediatas no raciocínio, tão evidentes… que não compreende como tão poucos se abalançam na andança de fazer vinhos Alvarinho nos concelhos de Valença e Cerveira!

Chegou à Quinta da Pertigueira por acaso, por simples coincidência temporal de outros negócios. Comprou uma pequena propriedade perto, uma casa rural que revendeu com as devidas maisvalias em pouco mais de 15 dias. Quando estava em Valença, a formalizar a venda junto do notário, reparou num cartaz a anunciar a venda de uma quinta em Codeceiro, concelho de Valença. Nem perdeu tempo! Mal terminou as assinaturas dirigiu-se até ao local e, em poucos minutos, assegurou a compra da nova propriedade, uma pequena quinta com 20 hectares de terra virgem. Gostou do sítio! Passadas três semanas, e apesar de duas ofertas de compra, decidiu que este era o grande momento, o tempo certo para plantar uma vinha e apostar na criação de uma marca própria. Plantou muito Alvarinho (90%), um pouco de Trajadura, Loureiro e Caiño Branco, guarnecidos num cantinho com as castas tintas Vinhão, Espadeiro, Pedral e Brancelho.

Em 2001 nasceu o primeiro Rolán, feito em adega alheia, numa produção mínima e quase experimental. Em 2002, já com adega própria, adaptada de um antigo telheiro para guardar alfaias agrícolas, a produção já foi mais consequente. Entretanto, a área plantada e a área total de propriedade foram crescendo num exercício imparável. Aos 20 hectares iniciais já se somaram entretanto 40 hectares de terra, num total de 60 hectares, 32 dos quais com vinha implantada! Algarismos impressionantes para um região de minifúndio, tarefa notável para quem tem de contactar duas dezenas de herdeiros para comprar meio hectare de pinheiros! Mas Vitor Rolán é exímio na arte da persuasão imobiliária, na capacidade de comprar, vender e trocar terrenos, na realização de operações por todos consideradas impraticáveis.

Como homem de negócios experiente que é decidiu rodear-se dos melhores. Por isso foi buscar José Manuel Martínez Juste para enólogo consultor, enólogo de referência Rias Baixas e Ribeiro, valor mais que seguro para conduzir os destinos da adega. Adega onde não poupou dinheiro. Se a construção é simplesmente funcional, sem mais, o equipamento é sólido e moderno, numa demonstração clara de quem percebe as prioridades da vida. Sim, é verdade que os Rolán são menos incisivos que os Alvarinhos tradicionais de Monção e Melgaço, mais suaves e meigos do que a tradição portuguesa manda. Mas, muito mais que uma consequência natural do “terroir”, é uma opção enológica que privilegia maior brandura de acidez, maior macieza, num estilo mais fácil de compreender e, sobretudo, muito mais internacional, mais fácil de vender fora de fronteiras. Claro, tentar vender um Alvarinho português do outro lado da fronteira, na Galiza, seria à partida uma tarefa inglória. Seria assim para todos… menos para Vitor Rolán, que, como que por magia, conseguiu transformar a Galiza no seu principal mercado, escoando aí cerca de 60% da produção total!

Um feito que confirma a máxima da casa de não existirem tarefas impossíveis. Das três etiquetas, o Colheita Seleccionada é aquela que mais sobressai. Mais floral que frutado, levemente mineral, fresco, é um Alvarinho divergente do perfil tradicional português, mais chegado, no estilo e personalidade, aos vizinhos galegos. Agradável, bem disposto, elegante e generoso, é um branco que deixa um sorriso estampado no rosto, a meio caminho entre a exuberância e a austeridade.


EDMUN DO VAL {O apelo português}

Um olhar atento para o nome de Edmundo Rafael Ruibal Sobral, pater famílias e capitão da casa, será suficiente para adivinhar a ascendência portuguesa da família Ruibal, proprietários da bela e harmoniosa Quinta Edmun do Val. Estamos em São Julião, no Lugar da Torre, num recanto do concelho de Valença de estrepitosa beleza natural. Adivinha-se a aristocracia e nobreza do lugar na opulência do património, nas casas históricas e brasonadas do outro lado da estrada, na torre medieval que se ergue junto ao muro, quase colada ao portão de entrada. Como beleza natural é difícil idealizar melhor!

Passado o portão percorremos uma estrada serpenteante, por entre as vinhas bem cuidadas, arribando rapidamente à casa mor, ao paço hoje transformado em adega. E aí, o sobressalto é total, num conjunto inesperado, capaz de deixar os visitantes estupefactos. Por fora, os trabalhos de recuperação da velha casa, segundo a traça original, sem fantasias nem floreados, resultaram exemplares.

Curiosamente, e apesar de se manter fiel ao desenho original, o paço sugere uma inspiração galega na arquitectura, no pátio interior, nas portadas de madeira maciça castanha, nas traves do tecto. Mas é o interior que mais surpreende pelo enorme pé-direito, pela beleza e sobriedade, pelo classicismo das paredes nuas de pedra, num matrimónio perfeito entre a arquitectura tradicional e o modernismo dos equipamentos da adega. Paredes grossas de quase um metro, paredes de pedra maciças, agentes isolantes naturais que quase dispensam a climatização artificial. Nitidamente, a família Ruibal não olhou para despesas! Cubas, bombas, filtros, prensas, tudo é ultra moderno, sobredimensionado, procedente das melhores marcas do mercado. Dificilmente se poderia imaginar uma adega mais moderna, melhor equipada, mais sofisticada, numa envolvente assim tão bela. Entramos num paço do século XVII, envolvidos pela beleza da arquitectura e da paisagem, e desembocamos directamente numa adega do século XXI, no coração do inox e da tecnologia! Em cada ponto da adega e da quinta percebe-se uma atenção permanente com os pormenores mais insignificantes, uma preocupação estética com todos os detalhes, um rigor pouco habitual num projecto emergente.

Edmundo Rafael Ruibal Sobral é natural de Tui, Galiza, cidade onde vive, embora descendente de mãe portuguesa. A sua carreira profissional, na senda da tradição familiar, foi dedicada à produção de energia eléctrica na empresa familiar, responsável por dezenas de mini-hídricas e pelo abastecimento energético da cidade de Tui. Apesar de espanhol de nascimento, sempre manteve a ligação directa com Portugal, com a família portuguesa de Valença. Cedo foi atingido pelo bichinho do vinho, por esse desejo inexplicável de criar um vinho, de transformar as uvas, produto da terra, em vinho, bebida do homem. Um dia, num bom momento de inspiração, comprou a quinta na posse de uma tia materna, propriedade da família durante várias gerações. Pouco tardou até plantar uma vinha, transformando para sempre os destinos da quinta… e da sua vida. Dos 12 hectares de terra disponíveis, ocupou sete com vinha, segundo a proporção clássica galega de plantar Alvarinho (90%) com variedades menos acídulas, como as castas Loureiro (7%) e Trajadura (3%). Não por acaso, este é precisamente o lote do Edmun do Val, um vinho que apensa o Loureiro e Trajadura ao Alvarinho maioritário.

Segundo Cristina Mantilla, a enóloga consultora da casa, conseguem com este lote produzir vinhos mais suaves e delicados, mais flexíveis e pacíficos, muito mais internacionais no estilo, sem a acidez pungente tradicional que caracteriza os Alvarinhos nacionais. Questões de estilo, questões de gosto mas, igualmente, questões comerciais que se podem revelar decisivas para quem necessita exportar, para quem não pode, nem quer, ficar preso ao mercado nacional. Tal como no desenho da adega, também na enologia visaram alto, com a colaboração de Cristina Mantilla, uma das enólogas mais solicitadas da Galiza, nome maior da enologia galega, responsável por projectos como as Bodegas del Palacio de Fefiñanes, Maior de Mendoza, Adegas Valmiñor e Pazo San Mauro. Pablo Ruibal, director comercial e filho de Edmundo Rafael Ruibal Sobral, não esconde o seu empenho pessoal no projecto. Além de responsável pelo cuidado com a imagem, com os rótulos belíssimos e as caixas bem desenhadas, manifesta um interesse especial pela vinha. A produtividade é incrivelmente baixa, mesmo para a casta, numa procura constante para privilegiar a qualidade sobre a quantidade.

Os cuidados extremos estendem-se à vinha, à vinha impecável e bem estabelecida, em fase de crescimento, à vinha que, por ora, só consegue encher 21.000 garrafas. Sim, neste primeiro ano de produção, a colheita 2007, a produção foi muito pequena, com uma selecção rigorosa das parcelas a usar. Aumentará nas próximas colheitas, mantendo sempre uma dimensão humana, uma dimensão confortável que permita à família um envolvimento diário e pessoal. Ainda se espera muito deste projecto familiar…

Texto: RUI FALCÃO
Fotos: GIUDITT ABUSSETTI
Wine 36

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