propriedade: Essência do Vinho
Logotipo Bluewine

Reportagens

SYMINGTON. Império familiar e de convicção

QUINTA DO VESÚVIO
PAUL SYMINGTON

VIVEMOS EM PLENA era da globalização, esse palavrão tão mal amado de que os portugueses foram precursores quando se lançaram na epopeia dos Descobrimentos. Vivemos na idade da uniformização e homogeneização, na época da massificação cultural, da estandardização de práticas e gostos, da unificação de procedimentos e costumes, segundo modas ditadas pelas conveniências passageiras de algum departamento financeiro. Com a crescente, e inevitável, globalização económica, para além da integração e uniformização moral e intelectual prosperou um certo tipo de “cinzentismo”, uma teia de meias palavras e julgamentos vagos que nos afasta das origens, do lado humano da vida, da autenticidade de gostos, da paixão genuína que deveria comandar a sociedade. Porque à globalização só interessam os sacrossantos valores do mercado, a rentabilidade segura do capital, os números frios e desapiedados, a conveniência efémera da conjuntura. Por isso, em plena fase de expansão da unificação cultural e económica, será que a existência de empresas familiares continua a fazer sentido na sociedade moderna? Conseguirão as empresas familiares viabilidade económica satisfatória que lhes permita assegurar um futuro auspicioso? Estarão as empresas familiares condenadas a uma extinção prematura, lenta mas gradual?

Porque, sejamos honestos, as sociedades familiares encerram dificuldades e vícios de forma decisivos, inconvenientes sérios que podem mostrar-se fatais. Sim, é verdade que as empresas familiares continuam a ser a forma predominante de iniciativa económica graças ao empenho e investimento pessoal de empreendedores individuais. Mas estão também sujeitas a pequenos e grandes escolhos, contrariedades tão dispersas como as regras e “timings” de sucessão, o pagamento de impostos sucessórios, as condicionantes da delicadeza do trato familiar, a pulverização resultante das partilhas determinadas segundo o código napoleónico, o risco recorrente de assaltos bolsistas especulativos. Não, presidir a uma sociedade familiar, apesar da ventura da missão, não é tarefa fácil. Mas é, seguramente, a melhor forma de estar no negócio, em qualquer negócio que implique envolvimento pessoal, continuidade, valores e alma.

Estes são os credos e os valores da família Symington, um dos raros negócios do Vinho do Porto que se perpetua dentro da esfera familiar, assente na doutrina de uma família que vive o vinho de forma intensa e apaixonada. Pouco demora até perceber o entusiasmo com que todos os membros da família falam do Porto e do Douro, da vinha e do vinho, da história do Vinho do Porto, do presente e do futuro. Um ou dois minutos de conversa são tempo mais que suficiente para descobrir a paixão que segue na alma, a vivência intensa, o ardor que corre nas veias desta família que teima em manter-se irredutível no compromisso para com o Douro. Os Symington não serão a família mais antiga do negócio, com mais gerações para enumerar nos livros de história, mas são, seguramente, uma das mais bem preparadas para o mundo complexo em que hoje vivemos, uma das mais empenhadas na consagração mundial dos vinhos que nascem no Douro.

ESTÓRIAS DE UMA HISTÓRIA
A saga da família em terras lusitanas já vai longa. Poderíamos dar início à prédica logo em 1652, quando Walter Maynard, um dos primeiros exportadores ingleses de Vinho do Porto, se casou com Leonor da Silva Moura. Poderíamos mas não o fazemos porque, na verdade, foi em 1882 que a aventura Symington verdadeiramente começou, quando Andrew James Symington desembarca na cidade do Porto, chegado directamente de Glasgow, da sua Escócia natal. Apropriada e curiosamente, chegou para trabalhar junto da família Graham - empresários de visão, negociantes de horizontes alargados, proprietários de múltiplos negócios e investimentos em Portugal. Começou pela indústria têxtil, mas rapidamente ganhou gosto pelas coisas do vinho, pelas oportunidades e contingências do vinho, pelos detalhes e desvarios, pela vivência do mundo do vinho. Dois anos depois de arribar ao Porto foi logo encarregue pelo governo português de expedir 20.000 pipas de Vinho do Porto para Inglaterra, ligadas à família Burnay. De um início na indústria têxtil, rapidamente centralizou a sua vida em redor do Vinho do Porto. Em pouco mais de uma década, logo em 1905, tornou-se accionista da Warre’s & Co para, apenas três anos volvidos, se converter no proprietário absoluto da ilustre companhia!

Tinha, entretanto, casado com Beatrice Watkinson, descendente na nona geração de Walter Maynard e Leonor da Silva Moura. Andrew James Symington, imagina-se, terá sido um empresário astuto e industrioso porque, poucos anos passados, converteu-se igualmente em accionista da prestigiada empresa Dow’s, proprietário de quase um terço do capital da companhia Silva & Cosens. Apesar dos tempos difíceis, da política nacional turbulenta, da inflação galopante, das greves sucessivas e das convulsões do império português, apesar das pragas e doenças que assolavam o Douro, apesar do início da Primeira Guerra Mundial, a vida corria de feição para Andrew James Symington.

Não obstante a guerra, o mercado inglês prosperava e o Vinho do Porto ganhava uma notoriedade crescente e decisiva em Inglaterra. O dealbar do século tinha-se convertido numa época gloriosa para a família Symington. Com o fim da guerra (onde Maurice, filho mais velho de Andrew, lutou pelo corpo expedicionário português), dois dos três filhos, John e Ronald Symington, nascidos em Portugal, rumaram ao Douro, onde se ocuparam da replantação, manutenção e desenvolvimento das célebres quintas do Bomfim, Zimbro e Senhora da Ribeira. Com John e Ronald Symington começou aquela que é uma das maiores singularidades dos Symington, a ligação figadal à terra, o amor profundo pelo Douro, o apego íntimo pela terra e pela vinha, a relação estreita com cada uma das quintas. Raras eram as famílias que à época viajavam ao Douro, que mostravam o seu apreço por esta terra selvagem e indomável, de acesso difícil, de conforto inexistente. Rumar ao Douro era então uma aventura desconfortável que seduzia a muito poucos. Por alguma estranha razão para a época, o Douro sempre exerceu um fascínio comovente nos Symington, ainda hoje visível no brilho dos olhos quando falam das muitas quintas que possuem, quando falam das vinhas, dos socalcos, dos tempos de infância passados em cada quinta. A ligação é estreita e a admiração pela monumentalidade do Douro uma circunstância indesmentível. Cinco gerações depois de Andrew James Symington ter aportado ao Porto, o envolvimento continua intenso e directo, na visão de quem se preocupa com o Douro, com as suas gentes, com a paisagem e com o progresso local. Em todos os momentos da conversa sentimos essa reconfortante sensação de perceber um empenho genuíno, de estar perante quem sente o Douro, quem vive intensamente os tormentos da vinha, que se alegra e sofre com as pequenas glórias de cada quinta, de cada parcela, de cada videira. Com os Symington sentimos e comprovamos uma estranha e cativante congregação entre a racionalidade britânica e um entusiasmo lusitano que nunca quiseram esconder.

Curiosamente, John e Ronald Symington dedicaram-se ao desenvolvimento de empresas distintas - John com a Warre’s, Ronald com a Dow’s. Em 1929, ano da grande depressão, sucedeu o primeiro revés sério para a família, o primeiro de muitos. Num ápice, com o mundo inteiro em crise, com a fome a bater à porta, o negócio do Vinho do Porto desmoronou-se como um castelo de cartas! Muitos produtores desapareceram, muitas casas fecharam portas, muitos sacrifícios foram feitos. A família lutou contra dificuldades gigantescas, lutando pela sobrevivência, num esforço titânico para manter o negócio de pé. Quando os tempos melhoraram, quando as perspectivas se desassombravam, eis que começa a tenebrosa Segunda Guerra Mundial. De novo, viveram tempos de adversidade e infelicidade, tempos de penúria e incertezas. Muitos fugiram para Inglaterra, mas os Symington não abandonaram as vinhas do Douro! O fim da guerra não acrescentou boas novas a um sector fortemente abalado pela crise. As décadas de 40 e 50 foram catastróficas para o Vinho do Porto. Cada dia que passava simbolizava mais um dia de sobrevivência, mais um dia conquistado à falência, numa peleja quotidiana para manter a Warre’s e Dow’s acima da linha de água. A criação da “lei do terço”, ainda hoje pedra de toque do Vinho do Porto, encarregou-se de delapidar o pouco que ainda remanescia da necessária liquidez. Para salvar as duas empresas da bancarrota, para conservar o negócio em família, o impensável aconteceu, a necessidade urgente de vender quintas, de alienar as preciosas quintas da Senhora da Ribeira e Zimbro. A Quinta do Bomfim, essa salvou-se, embora por uma unha negra… Foram-se os anéis mas ficaram os dedos!

A AFIRMAÇÃO DE UM GIGANTE DO VINHO DO PORTO
Os anos 60 anunciaram o regresso da alegria, o retorno da esperança ao universo do Vinho do Porto, o dealbar de uma nova época de prosperidade. Infelizmente, para muitos a salvação chegou já tarde de mais. Empresas familiares como a Sandeman, Cockburn, Delaforce ou Croft já tinham sido vendidas, passando para as mãos de grandes empresas multinacionais, desejosas de encontrar um espaço próprio no seio de uma família tão consagrada.

Em 1970, completou-se um círculo da vida, mais uma das ironias de que a vida é fértil, quando os Symington compraram a Graham’s à família homónima. Quase um século depois de Andrew James Symington ter ancorado na cidade do Porto, precisamente para trabalhar na Graham’s, os seus netos negociaram e compraram a empresa onde a grande aventura dos Symington tinha começado. A Smith Woodhouse, pertença da Graham’s, foi acrescentada logo em seguida ao imenso portfólio de empresas do grupo. Entrementes, Maurice Symington já se tinha reformado, passando a pasta à nova geração, Michael, Ian, James e Peter Symington. Nasceu assim outra das tradições intrinsecamente emparelhadas com a família Symington, a obrigação moral e estatutária de reforma compulsiva aos 65 anos.
Os Symington, brilhante e friamente, perceberam que não existem pessoas insubstituíveis numa estrutura familiar, que a motivação da nova geração é fundamental, que a injecção de sangue novo é imprescindível para o sucesso comum. Ninguém se perpetua indefinidamente na administração, ninguém tem o exclusivo da razão, ninguém está acima do colectivo. As decisões são consensuais, os caminhos são consensuais, as estratégias são consensuais, as políticas são consensuais, sem melindres nem estigmas que favoreçam a discórdia. Afinal, o objectivo e a paixão são comuns.

Depois da bonança sempre irrompe uma tempestade! A somar à crise do petróleo e à desertificação do interior transmontano, em 1974 irrompe a revolução de Abril, o ano de todos os excessos e convulsões sociais. Por mais que uma vez, a família sentiu o medo das nacionalizações, sofreu com as greves, conviveu com o receio de intervenções das comissões de trabalhadores, receou pelo futuro. Se os excessos pós-revolução depressa passaram à história, os efeitos da desertificação do interior, esses permaneceram activos, agravando-se com o suceder dos anos. Por isso, a família investiu tanto no desenvolvimento de tecnologia revolucionária que permitisse minorar o problema e acautelar o futuro. Primeiro, no final dos anos 60, com os auto-vinificadores de memória dúbia. Mas, sobretudo, já na década de 90, com os primeiros lagares robóticos, obra-prima da tecnologia e criação nacional, fruto do empenho e financiamento dos Symington, desenvolvidos em parceria com empresas nacionais. Poderá parecer pouco à primeira vista, apenas mais um “gadget”, mas os lagares robóticos, os verdadeiros lagares robóticos, são um dos desenvolvimentos mais perspicazes e revolucionários da enologia nacional. Substituem o trabalho braçal por um trabalho automático, congregando o melhor da tradição com os benefícios da modernidade.

Hoje é a quarta geração que comanda os destinos da casa, os primos e irmãos Paul, Dominic, John, Charles, Clare e Rupert Symington, divididos e especializados em diferentes áreas do negócio, em áreas geográficas bem delimitadas, sem atropelos, sem necessidade de protagonismo, sem divergências inteligíveis. Curiosamente, e apesar do evidente vínculo ao Reino Unido, os Symington são porventura a mais portuguesa das famílias de descendência britânica. Pelo sangue, já que a bisavó da actual quarta geração era portuguesa, tal como o são a mãe de Charles ou a avó de Paul Symington. Pela religião, e o detalhe é muito mais relevante que o expectável, já que os Symington são católicos de profissão de fé, ao contrário da maioria das famílias de tradição britânica, ligadas à tradição protestante. Por terem lutado por Portugal, integrados e condecorados, pelo exército pátrio. Pelo amor ao Douro que é visível nos mais pequenos detalhes. Gerações que passam, gerações que perduram, gerações que nunca desistiram do amor ao Douro. Ao ouvir os testemunhos dos anos de crise e de bonança, descobrimos a relação íntima entre o Douro e os Symington. Talvez o melhor testemunho, a melhor evidência, provenha mesmo dos investimentos privados que cada um dos membros da família, cada um dos membros do conselho de adminis tração, consuma no Douro. É sabido que os Symington são os maiores proprietários de terra no Douro, senhores de um pouco mais de 1.700 hectares de fazenda, divididos por entre 22 quintas… numa região onde a propriedade média se confina pelo meio hectare de extensão. O que poucos saberão é que mais de um terço destas quintas é propriedade pessoal e privada de cada um dos membros da família, dinheiro próprio investido no Douro.

Capital próprio que foi investido no Douro e não em nenhum outro negócio, em nenhum outro lugar, em nenhuma outra actividade. Todo o capital privado, de todos os membros da família, para além do capital social da empresa, é reinvestido no Douro, na produção, na vinha, numa prova irrefutável de crença no futuro do Douro e do Vinho do Porto, numa garantia de continuidade, numa certeza de perenidade. Os Symington vieram para ficar!

UM PROJECTO SEMPRE EM ABERTO
Encaram o destino com tanta certeza e com uma ligação tão natural ao vinho que, em 1998, decidiram juntar esforços com a família Blandy’s da Madeira, amigos de longa duração, tomando parte do capital social da Madeira Wine Company. Juntaram o melhor de dois mundos, na tradição e excelência dos maravilhosos vinhos Blandy’s, Leacock e Miles, com a impressionante capacidade técnica, comercial e de gestão da família Symington. Antes, em 1989, já tinham adquirido a Quinta do Vesúvio, uma das jóias supremas do Douro, nome sonante do património Symington a quem foi destinado o papel de montra da casa.

Em 1998 fecharam mais um círculo, um remate passional, quando recuperaram a Quinta da Senhora da Ribeira, sacrificada em 1954 para ressalvar a independência da família. Seguros do potencial do Douro, lançaram-se também na peripécia dos vinhos tranquilos, primeiro com o Altano, mais tarde com o reputado projecto Chryseia, em parceria com o mediático Bruno Pratts. Agora, muito para breve, está também previsto um novo Quinta do Vesúvio tranquilo. Hoje dividem a produção entre as quintas de Malvedos, Lages & Tua, Vila Velha e Vale de Malhadas para a Graham’s, quintas de Bomfim, Senhora da Ribeira, Santinho & Cedeira, Fonte Branca e Atalho para a Dow’s, quintas de Cavadinha, Retiro Antigo, Telhada, Andorinhas, Alvito & Netas para a Warre’s e, finalmente, as quintas de Ataíde e Perdiz para os vinhos tranquilos, espalhadas pelo Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior. A produção divide-se entre as duas adegas nucleares, Sol e Bomfim, assistidas nas produções especiais por mais seis pequenas adegas especializadas, no Vesúvio, Malvedos, Senhora de Ribeira, Cavadinha, Tua e Canais. Se a inventariação de quintas e adegas pode resultar enfadonha, compreende-se a relevância para ilustrar a dimensão e seriedade dos investimentos da família Symington no Douro.

E é precisamente por ter quedado como empresa familiar que o presente e o futuro, apesar dos ventos sombrios que assolam o Vinho do Porto, aparecem tão promissores. Todos sabem o seu papel, todos têm consciência do passado, do presente e do futuro. Todos lutam por um bem comum, com o justo equilíbrio entre o peso da história e a necessidade de inovação. Talvez assim se perceba melhor o arrojo de lançar um Vintage Quinta do Vesúvio em edição anual, o desplante de lançar um Warre’s Otima em garrafa branca estilizada, mais apelativa para os consumidores jovens, o atrevimento de lançar um Graham’s “The Tawny” que é engarrafado numa velha garrafa de whisky. Ainda existe espaço e razão para as empresas familiares? A resposta, a avaliar pelo exemplo da família Symington, é um rotundo sim!

Texto:  RUI FALCÃO
Fotos:  GIUDITTA BUSSETTIE FABRICE DEMOULI
Wine 35

(+) Reportagens
design@wallpaper.pt