propriedade: Essência do Vinho
Logotipo Bluewine

Reportagens

BAIRRADA - A nova inspiração

Ser português e não conhecer a Bairrada afigura-se tão improvável como ser francês e nunca ter ouvido falar de Bordéus ou Borgonha. Goste-se ou não da região e dos seus vinhos, a verdade é que a Bairrada é parte integrante do imaginário colectivo nacional, uma referência absoluta e intuitiva para a maioria dos portugueses. Mas, apesar do nome sonante, apesar de se apresentar como uma denominação conhecida e reconhecida, a recompensa mediática não é sinónimo evidente de apetência de mercado e, desafortunadamente, não tem tradução directa na venda de vinhos. Apesar dos pergaminhos do passado, e prepare-se para um choque tremendo, a Bairrada não representa hoje mais do que um por cento do total de vendas de vinho no mercado nacional! Sim, isso mesmo, pouco mais que um por cento das vendas nacionais de vinho engarrafado ou, dito por outras palavras, um valor residual e marginal do mercado nacional. Porquê? O que levou a esta dissociação tão vincada entre uma denominação de origem prestigiada e os consumidores portugueses? As razões são variadas e complexas, expressando um somatório de decisões e opções, de acções e omissões ao longo de três ou quatro décadas. Vinhos pouco adaptados à realidade e à evolução de gostos, a insistência quase obsessiva numa só casta, a Baga (não estando em causa os seus méritos), excesso de protagonismo do umbigo, um conservadorismo extremado e um bairrismo exacerbado, propício a antipatias e ódios de estimação entre os vários protagonistas regionais, foram os principais factores do divórcio.

O autismo da Bairrada chega a ser confrangedor… e cáustico. Poucas regiões são tão avessas a mudanças e transformações ou ainda, mais corriqueiramente, a simplesmente ouvir e aceitar algo de novo que irrompa do exterior… ou mesmo do interior! Poucos nomes serão tão desmotivantes para o grande público como a Bairrada. Ostentar o nome Bairrada no rótulo é, como a maioria dos analistas, comerciais e mesmo alguns produtores da Bairrada o admitem, ainda que informalmente, a melhor forma de não vender vinho. Por isso, tantos produtores da região fugiram, em tempos idos, para o refúgio Beiras. Por imagem, mas também por fuga a uma legislação regional que coagia a uma casta e a um modelo vínico, uma legislação administrativa caturra que muito maltratou o nome Bairrada. Infelizmente, foi mesmo assim. Infelizmente porque a Bairrada é, sem qualquer dose de paternalismo ou de simpatia ilusória e forçada, uma das regiões portuguesas mais originais, capaz de produzir vinhos extraordinários como poucas outras regiões em Portugal. É, seguramente, uma das regiões portuguesas com melhor e maior potencial para fazer vinhos brancos de excelência e uma das mais acertadas para fazer vinhos singulares no panorama nacional e internacional. Felizmente, a nova legislação facilitou e liberalizou o nome Bairrada, separando-o de forma feliz em duas designações, apropriadamente intituladas Bairrada e Bairrada Clássico.

Ditosamente, hoje percebe-se alguma vontade genuína de mudança. Ainda não representa o grosso dos agentes da denominação, mas é um princípio, uma janela entreaberta. E, o futuro da Bairrada passa, seguramente, pelos três produtores que apresentamos a seguir…

{QUINTA DO ENCONTRO}
UMA POSTURA DE VANGUARDA ROMPENDO VELHOS COSTUMES
Em pouco tempo, num simples piscar de olhos, a Dão Sul, ou melhor a Global Wines, nova designação social do grupo, chegou, viu e venceu. E venceu com estrondo, com pompa e circunstância, como de resto é habitual nos projectos em que a Dão Sul se compromete. Sim, é verdade que a Quinta do Encontro já existia com os limites actuais bem antes de a Dão Sul chegar à Bairrada, que as vinhas já estavam estabelecidas e que a adega há muito fazia vinho. Mas, quem se recorda ou sequer conhecia a existência da Quinta do Encontro, antes da entrada em cena da Dão Sul?

Foi quase por acaso, por destino, que a ligação se iniciou, numa teia fértil em cumplicidades e amizades, por razões familiares, por pequenos imprevistos de que a vida é fértil. Uma ligação natural que Carlos Rodrigues ajudou a cimentar, na transição perfeita entre as eras pré e pós Dão Sul na Quinta do Encontro. O desejo de estar na Bairrada era inequívoco desde o primeiro instante ou não fossem filhos da terra três dos quatro mentores iniciais do projecto Dão Sul. O chamamento da filiação, do berço, é sempre determinante nas escolhas pessoais, particularmente no vinho, na ligação íntima à terra e aos elementos. Foi assim que, em 2000, Carlos Lucas, Casimiro Gomes e demais sócios se lançaram na grande aventura bairradina.

Em boa hora o fizeram porque a nova Quinta do Encontro veio agitar o imobilismo caduco de uma região profundamente isolacionista. Para além dos vinhos oferecidos, com que cada um sentirá maior ou menor empatia, a Quinta do Encontro assumiuse como um motor de desenvolvimento regional, como impulsor de uma nova visibilidade para a região, transportando e promovendo o nome Bairrada para uma nova franja de consumidores. Até a publicidade aguerrida e exuberante do grupo serviu como promotor de toda uma região, porque a Quinta do Encontro nunca sentiu necessidade, nem motivação, para dissimular o nome Bairrada na comunicação. Pelo contrário, sempre o exibiu com orgulho e com ostentação. E, claro, para além de uma promoção eficiente, a Quinta do Encontro teve o cuidado de apresentar vinhos modernos e sofisticados, numa gama alargada e racional que contempla todos os patamares do mercado. Brancos, rosados, tintos e espumantes, de todas as castas, de todos os feitios, de todos os preços e categorias, numa visão racional do mercado. Vinhos simples e atractivos, vendidos a preços convidativos, mas também vinhos complexos e aprimorados, comercializados a preços elevados, numa promoção global da denominação Bairrada. Dos 20 hectares de vinha originais, cerca de metade foram reestruturados com castas novas e vinhas igualmente novas. Vinte hectares que são necessariamente complementados com uvas compradas, em contratos de aluguer de longa duração, com acompanhamento sanitário e vitícola assegurado pelos especialistas da Quinta do Encontro. As vinhas próprias, para além da indispensável Baga, acolhem cepas de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Castelão, Cabernet Sauvignon e Merlot nos tintos. As vinhas brancas abrigam as inevitáveis e, já expectáveis, Maria Gomes, Bical e Arinto. Vinhos que hoje são feitos numa nova adega inaugurada em 2005. Nova adega que prontamente se tornou num dos ex-libris da região, motivo de romaria para os aficionados do vinho, da gastronomia e da arquitectura. Não se olhou a despesas e o resultado final é muito mais impactante e ambicioso que uma simples adega. É um grito de afirmação, um sinal claro e ruidoso do poder e vitalidade do grupo Dão Sul.

É um cartão de visita monumental, de quem sabe que o vinho não se esgota na vinha, nem numa garrafa de vinho. É a sala de visitas da Global Wines na Bairrada, uma ferramenta extra no charme da Dão Sul. A característica mais marcante é a forma circular perfeita, de arena no exterior, de espiral na ligação interior dos três pisos, um dos quais enterrado, numa alegoria externa com o formato de uma garrafa, uma parábola interna à espiral do saca-rolhas.

Mas, afinal, chega-se ao interior do edifício e não se descobre nenhuma adega. Apenas um restaurante, aberto todos os dias, uma loja ampla, áreas sociais e zonas reservadas a eventos empresariais. A adega, essa, também circular, composta por um núcleo cilíndrico e dois anéis concêntricos, está integralmente enterrada, subterrânea, escondida de olhares curiosos, resguardada do sol e dos calores, racional e cenicamente disposta para emocionar e impressionar numa visita recheada de elementos dramáticos. Uma mistura quase perfeita entre cenário de imagem do grupo e racionalidade enológica. Porque a adega é não só impressionante na arrumação e estética como ultramoderna e funcional, oferecendo uma visão diferente e rejuvenescida da Bairrada.

{CAMPOLARGO}
O RETORNO FELIZ ÀS ORIGENS
O filho pródigo regressou a casa. Carlos Campolargo é, certamente, um dos nomes mais interessantes e inconformistas da Bairrada, um agitador e provocador, mas simultaneamente um homem profundamente ligado à tradição, profundamente respeitoso para com o passado… mas não com o passado recente da Bairrada. Das mãos de Campolargo têm nascido alguns dos vinhos mais interessantes da região, vinhos sinceros e originais, modernos e tradicionais, de estilo nacional e internacional, numa profusão e pluralidade de estilos e rótulos que, por vezes, é difícil acompanhar. O que é sobretudo interessante em Campolargo é essa mistura saudável entre tradição e inovação, numa postura de permanente insatisfação, numa busca incessante por fazer melhor e também maior. Sim, porque se no dealbar do milénio a produção ainda era marginal, ensaísta, quase frívola e insignificante no volume, com criações de garagem que raramente ultrapassavam as 1.500 a 2.000 garrafas por rótulo, hoje a produção ronda as 600 mil garrafas! É fácil esquecer que a primeira colheita foi engarrafada apenas no ano 2000, e que nos primeiros quatro anos a produção se manteve liliputiana e quase confidencial. Foi só em 2004, com a construção da nova adega, que a produção aumentou exponencialmente. Visível de qualquer ponto da vinha, da imensa e bem arranjada vinha, lá está ela no alto, uma adega modelo, um empreendimento que faz parte das visitas obrigatórias de todos os enófilos. Sita no ponto mais alto do "latifúndio", tudo nela funciona por gravidade, sem necessidade de forçar ou "magoar" as massas que circulam pela adega. Adega que, claro, assume a dupla vocação de local de labuta, de feitura de vinho e local de imagem, de representação. Como cartão de visitas, não será fácil fazer melhor. Depois, há a vinha em redor. Dar uma volta pelas vinhas é sempre a melhor forma de apreciar com rigor um projecto vínico e é fácil ficar bem impressionado com as vinhas de Carlos Campolargo. Na verdade, é fácil ficar esmagado pelo tamanho da vinha, pela variedade do património genético, pelo cuidado extremo, pela atenção e amor que se percebe nas palavras e nos gestos. Espaço bem tratado, vinha impecável, esmero e orgulho evidente no trabalho feito e um património ampelográfico de fazer corar muitos viveiristas! Por breves instantes julgamos estar num campo de estudos experimental, num espaço universitário de investigação. Senão, vejamos.

Nas castas tintas estão plantadas as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Petit Verdot, Malbec, Baga, Touriga Nacional, Touriga Franca, Trincadeira, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Trincadeira da Bairrada (Castelão), Castelão Nacional, Alfrocheiro, Tinto Cão, Alvarelhão, Bastardo, Sousão, Alicante Bouschet e Tinta Francisca! Nas castas brancas as apostas recaíram no Viognier, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Bical, Arinto, Sercial e Verdelho, um mar de variedades distintas que permite dezenas de combinações e experimentações. Tudo isto plantado em 160 hectares de vinha, na quase totalidade contínua e contígua. À escala regional, tamanha dimensão é sinónimo de monopólio absoluto.

As exposições variam, tal como a altitude e, por isso, Carlos Campolargo dispõe do raro e risonho privilégio de poder escolher o melhor local para plantar cada casta por entre o vasto rol à disposição. Curiosamente, e em contra ciclo com o antecipado, são poucas as vinhas velhas existentes. Uma opção declarada do produtor que prefere temperar o vigor exuberante das videiras jovens com mondas verdes, a ceder aos caprichos e manias das vinhas velhas. Carlos Campolargo idealizou e continua a desenhar os vinhos em torno da experimentação, da oposição e complementaridade entre castas nacionais e estrangeiras, do subtil confronto entre tradição e modernidade. A gama é vasta e alargada, eventualmente demasiado dilatada. Não é fácil seguir os 22 rótulos existentes, acrescidos de pequenos desvios e derivações, de edições limitadas e de colaborações/parcerias momentâneas. A preocupação não é fazer vinhos fáceis ou modernos, vinhos centrados na doçura do fruto e, consequentemente, muito apelativos, do agrado geral e que proporcionem prazer efémero. Esses também poderão existir, mas não são a preocupação fundamental. Quer fazer vinhos originais e perturbadores. Por vezes, vinhos profundamente modernos e elitistas, por vezes vinhos visceralmente tradicionalistas, por vezes vinhos expressamente internacionais no estilo. E a preocupação estética com os vinhos não termina no vinho, estendendo-se ao desenho de rótulos elegantes e personalizados, à descoberta de nomes improváveis mas terrivelmente eficazes e recheados de humor, “sound bytes” de notável acerto. É fácil fixar nomes como Calda Bordaleza (para um lote tipicamente bordalês), Diga? (um vinho extreme de Petit Verdot nos tintos e Viognier na edição branca, numa época onde as castas não eram permitidas na Bairrada), CaTchorro (para um vinho extreme da casta Tinto Cão), Rol de Coisa Antigas (para um lote de castas tradicionais, hoje pouco comuns na região) ou Contra a Corrente (para um vinho feito ao arrepio da moda actual).

{QUINTA DA RIGODEIRA}
MUDAR SEM ROMPER COM A MELHOR TRADIÇÃO
Para inovar, para revolucionar, para mudar práticas e mentalidades, não é forçoso promover um corte radical com o passado. As revoluções também podem ser de veludo, sem sangue, sem contenda, sem confrontos, sem tumultos desnecessários. As verdadeiras revoluções não obrigam a um afastamento definitivo com o passado, uma ruptura radical com a história, uma cisão inflexível e determinada com a tradição. Do passado também se podem, e devem, retirar ensinamentos. Aparentemente, foi esta a filosofia que norteou Ataíde da Costa Martins Semedo quando decidiu formar os vinhos da Quinta da Rigodeira, em Ancas, concelho de Anadia, em 1984. Porque, apesar de resolutamente modernos e revolucionários, os vinhos da Rigodeira mantêm muitas das características únicas que identificam e singularizam a Bairrada. Desde logo nas castas, com uma atenção absoluta e dedicada à casta Baga, nos tintos, e uma aposta decidida nas brancas Maria Gomes e Bical, acrescidas de uns pozinhos de Chardonnay, a pensar na espumantização.

São cerca de 22 hectares de vinha, repartidos por quatro parcelas principais. Vinhas cuja idade oscila entre os 20 e os 70 anos, acarinhadas e apaparicadas por alguém que, instintivamente, sempre gostou e soube como tratar e zelar as preciosas cepas. Se a visão e a percepção da vinha de Ataíde Semedo sempre foi relativamente conservadora, regionalista e tradicionalista, a postura enológica foi mais modernista e anti-conformista.

Começou por se notabilizar com os vinhos espumantes, construídos sob a égide das castas Bical, Baga e Chardonnay, espumantes rigorosos e suaves, frescos, delicados e elegantes. O sucesso foi rápido e o aplauso generalizado. Mas foram os tintos da casta Baga que verdadeiramente o celebrizaram e lhe colaram o epíteto de insurrecto. Revolucionário por não se submeter ao espartilho da legislação e da tradição, por inovar e por se fundamentar em práticas do pensamento moderno. Rejeitou os clichés e os chavões estafados da enologia tradicional bairradina, questionando-se sobre os porquês de cada decisão, de cada opção, de cada passo. Montou uma adega simples, muito simples, mas surpreendentemente moderna para a época e decidiu investir em procedimentos considerados radicais, quase escandalosos no imobilismo momentâneo da Bairrada. Na sua aproximação herética chegou ao ponto de desengaçar uvas, de controlar a temperatura de fermentação e de estagiar os vinhos em madeira nova!

Sim, hoje estes avanços e ousadias podem parecer caricatos de tão rotineiros, mas em meados dos anos 90 ainda eram assunto tabu na Bairrada. Inovou e escandalizou também ao recusar-se guardar os vinhos durante os 18 meses de estágio exigidos pelos regulamentos da denominação Bairrada. Afinal, porque se submeteria Ataíde Semedo a tal obrigação processual se os seus vinhos, pelas boas práticas na vinha e na adega, estavam prontos para consumo bem antes? Pois, se a sua mais que preciosa Baga de vinhas velhas tinha sido tão bem tratada e mais tarde vindimada, no momento certo de maturação, porque haveriam os vinhos da Quinta da Rigodeira ter de esperar tanto tempo?

E, depois, teve ainda tempo para lançar aquele que é um dos grandes ícones da Bairrada, um dos sustentos da Bairrada moderna, um exemplo de cátedra do potencial da casta Baga, um sinal do que a Bairrada tem para oferecer, o Quinta da Dona. Poucos lhe ficaram e ficam indiferentes! São vinhos de personalidade vincada, vinhos abordáveis desde a juventude, vinhos irrequietos e inconformistas, vinhos de uma consistência notável, colheita após colheita. Vinhos onde a potência e a suavidade, essa dicotomia de difícil equilíbrio, marca de forma indelével o percurso na boca.

Por vicissitudes diversas, a Quinta da Rigodeira mudou de mãos e é actualmente pertença das Caves Aliança. A primeira vindima, já sob a responsabilidade de Arminda Ferreira, enóloga das Caves Aliança, deu-se em 2003, ainda na adega da Rigodeira. Hoje, os vinhos são elaborados nas Caves Aliança, em adegas mais funcionais e mais racionais na modernização e na racionalização de meios. Felizmente, as Caves Aliança têm consciência perfeita do poder e potencial da Quinta da Rigodeira e não tencionam abandonar ou menorizar a marca. Na verdade, o prestígio da Quinta da Rigodeira é tão elevado e o nome Quinta da Dona tão sonante, que o mesmo Quinta da Dona será em breve integrado no portfólio Aliança, perdendo a paternidade Rigodeira e ganhando uma nova família de adopção nas Caves Aliança. Será o topo de gama da Bairrada, em consonância com o Quinta dos Quatro Ventos Reserva do Douro e o T de Terrugem alentejano.

Texto Rui Falcão | Fotos Nuno Correia
blue Wine 29

(+) Reportagens
design@wallpaper.pt