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Cronista

JANCIS ROBINSON: «O que o vinho ganha com a crise»

Mesmo o mais ganancioso comerciante de “fine wines” tem de admitir que os preços de vinhos como os “Premier Cru” 2005 de Bordéus, os Cabernets californianos de culto e os vinhos premiados de outras regiões, atingiram níveis ridículos e insustentáveis na primeira metade de 2008. Não posso ser a única a ficar satisfeita por ver os preços dos vinhos topo de gama a suavizar e saber, a ponto de iniciar a campanha de 2008 “en primeur”, que Bordéus ainda está a braços com garrafas de 2007 por vender. Os consumidores começam lentamente a voltar a ganhar força no mercado de vinho e apenas podemos esperar que a moda demasiado óbvia de tratar o vinho topo de gama como um investimento e uma mercadoria transaccionáveis seja detida, pelo menos durante uns anos.

E, se demorar algum tempo até vermos novamente os compradores de “fine wines” numa luta indecorosa por uma fracção dos vinhos mais procurados, pelo menos eu ficarei contente. Chamem-me idealista, mas existem vinhos bons em quan tidade suficiente para serem usufruídos por toda a gente. E, se quer um conselho pessoal, fuja a sete pés de todos aqueles que se definem pelo número de garrafas que possuem nas suas adegas. Houve uma altura no ano passado em que parecia que a Ásia poderia cobrir os preços que os europeus e os americanos começavam a recusar. De facto, nos últimos meses parece que alguns dos produtores franceses de topo passavam mais tem po a cortejar novos clientes em Xangai e Hong-Kong do que em casa. Mas estou encantada por ver que os compradores asiá ticos, apesar de mais recentes no mundo do vinho, são financei ra mente astutos e não estão para pagar exorbitâncias. No que diz respeito à Rússia, outro mercado que despertou tantas esperanças no co mércio de vinho no mundo, todos os sinais apontam para uma queda. Até os oligarcas têm sentido mais dificuldades na vida.

Ficarei também contente se estes tempos conturbados trouxerem um desencorajamento para produzir vinhos de troféu e cuvées especiais para provocar aqueles que até há bem pouco tempo procuravam os “adereços” mais caros do mundo do vinho. Desde a ponta mais a sul do Rhône, à Argentina, passando por St-Emilion, Loire e McLaren Vale, costumo provar vinhos normais juntamente com as suas supostas versões de luxo e prefiro o vinho menos ambicioso, que não está espartilhado pelo carvalho novo, que nem se consegue perceber a fruta, nem a sua proveniência geográfica.

É claro que compreendo que se uma determinada colheita possui um carácter individual tão forte que será uma pena perdêlo num “blend”, então há justificação para engarrafar separadamente anos excepcionais. Mas, quando as colheitas especiais provêm da ganância ou de um plano de marketing, não só correm o risco de roubar ao vinho quotidiano alguns dos seus melhores ingredientes, como tendem a exercer uma pressão insustentável no vinho em questão, tentando justificar o preço elevado, demasiadas vezes através de um “make-up” duvidoso, como é o caso de deixar a uva nas vinhas por mais tempo, colheitas injustificadamente baixas ou barricas novas muito tostadas.

Falar em novas barricas faz-me reflectir sobre todo o dinheiro que já se gastou na produção de vinhos, para não falar de uma quantidade significativa das preciosas florestas do mundo. Não foi assim há tanto tempo (anos 90?) que os produtores de vinho de muitas regiões vinícolas em desenvolvimento quase que definiam os seus projectos pelo número de barricas de carvalho francês novas que tinham nas adegas. Para muitos produtores recentes, as barricas representavam a despesa mais importante, vista como o equivalente vínico da varinha de condão mágica. Litros de mosto embrionário eram comummente submergidos em taninos de carvalho de barris de baixa qualidade. Enquanto isso, como se nada fosse, delapidávamos os recursos de carvalho do mundo.

Actualmente, considero que os produtores são muito mais prudentes na utilização de carvalho novo. Esta tendência até já era evidente antes desta época da crise económica, à medida que os provadores mais sensíveis se davam conta que o carvalho novo não era nenhum remédio mágico. Agora tende-se a usar carvalho maior e mais antigo. As barricas são geralmente usadas duas ou três vezes no mesmo produtor de topo, antes de serem recambiadas para empresas de categoria mais baixa. E, para meu deleite, o material da austeridade, o cimento, também volta a estar na moda. Cada vez mais produtores de topo têm percebido que o cimento proporciona uma temperatura mais constante do que o aço inoxidável, usando muito menos energia.

A emergente consciencialização da necessidade de não desperdiçar energia, aliada à situação financeira mundial, tem também um grande efeito no comércio de vinhos. Isto é bem visível nas diferentes formas de embalagens e o momento ao longo da cadeia de fornecimento em que são aplicadas. No Reino Unido, por exemplo, um dos importadores de vinho mais fervorosos do mundo, há uma grande percentagem de vinho que é importado a granel (muito mais barato em termos de custos de combustível e transporte), antes de ser engarrafado ou colocado em outras embalagens, o que também ocorre com cada vez mais frequência. E a tendência geral é para utilizar garrafas menos pesadas. Muito engenho tem sido dispendido para melhorar a qualidade e a resistência de garrafas mais leves. Espero que não demore muito para que os produtores de vinho de todo o mundo deixem de transportar garrafas pesadas (tanto vazias, como cheias) por todo o planeta – embora ainda considere extraordinário que alguns dos mais leais defensores da sustentabilidade nas vinhas não estejam atentos a este assunto.

E, depois, ainda há o champanhe. Houve uma altura em que parecia que o mundo ia perder este produto. É a velocidade com que as coisas mudam que é tão extraordinária neste período da história. Daqui a pouco vou provar champanhe para a Primeira Classe da British Airways. Há anos que andamos a pedir à LVMH que nos envie amostras dos seus melhores vinhos, sem êxito. Hoje, na prova cega, vamos ter Krug e Dom Pérignon, entre outros. Na semana passada, o número de tintos australianos para a prova da Primeira Classe ultrapassou os 150. Vinhos muito bons, comparados com os quase 80 medianos da última vez. Nem tudo são más notícias para os “wine lovers”.

JANCIS ROBINSON | Wine 33

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