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Cronista

MANUEL CARVALHO: «A natureza dos mitos»

O Barca Velha é um mito que quando se revela dá origem a todas as discussões sobre a origem e a sorte do Mundo. Por estes dias, o anúncio da edição da colheita do ano 2000 não foi diferente da que aconteceu em outras edições anteriores: muitas páginas nos jornais, direito à televisão, comentários a eito sobre os porquês de tanto sucesso. Sendo um mito tangível, porque exala aromas e produz sensações na boca quando bebido, o Barca Velha não escapa à lógica da competição: será este o melhor vinho português? Ou é apenas isso um mito, que nos remete para a exigência e o pioneirismo do seu criador, ou para o primeiro ensaio consistente da enologia portuguesa em criar um tinto de nível mundial? E como se lida com mitos assim? Faz sentido guardar com fervor as edições anteriores a 1985 para experimentar a sua alegada imortalidade ou o melhor é reconhecer-lhe o seu carácter finito, comum a todos os produtos naturais, e consumi-lo quando chega ao mercado? E, já agora, 75 euros por garrafa, no mínimo, é um bom “value for money” ou com essa importância fica-se a ganhar com outras opções? Vale a pena encarar todas estas perguntas, toda esta natural agitação com uma constatação indiscutível: só o que é, de facto, importante suscita discussão e não haja dúvidas que o Barca Velha é mesmo um caso importante. E é-o, em primeiro lugar, porque tem uma personalidade definida que resulta de um processo de construção que já dura há mais de meio século. É-o também porque é originado por uma cultura enológica e empresarial que resiste à ditadura da pressa dos nossos tempos e não prescinde de estudo, de maturação, de reflexão e do prazer de correr riscos. Se o Barca Velha é um mito deve-o à sua excepcional qualidade, mas também à consistência e coerência de um percurso que lhe refina a imagem, factores fundamentais para aparecer aos olhos dos consumidores como um daqueles objectos de desejo adequados aos grandes momentos da vida. Nada disto, porém, responde à pergunta essencial: como pode um mito satisfazer os nossos desejos se a sua substância for susceptível de contestação? Conhecem-se muitos casos de desilusão de pessoas que provam o Barca Velha e ficam a sonhar com a intensidade aromática de um alentejano novo ou com o fulgor de um tinto duriense das novas gerações. Seja porque exageraram nas suas expectativas, seja porque simplesmente o estilo austero não se ajusta aos hábitos de consumo ou aos conceitos que se foram desenvolvendo em torno do que é um grande vinho. Compreendem-se algumas destas desilusões, mas nada disto compromete o mito nem ameaça a qualidade intrínseca dos Barca Velha. Provando-se edições antigas, como o 1982 ou, especialmente, o 1983, apenas podemos ficar espantados pela longevidade da sua concentração ou pelo refinamento das suas componentes. Avançando um pouco mais no tempo, apenas nos podemos espantar pela excelência das colheitas de 1991 ou de 1995. E, chegando à mais jovem geração do clássico, o ano 2000, bastam poucas palavras para dizer o essencial: este é uma das mais perfeitas criações da enologia portuguesa de sempre. Pode ser caro, pode ser que a filosofia que está na base da sua construção sirva em simultâneo o aprimoramento dos lotes eleitos e os efeitos do marketing, mas o Barca Velha só é um mito porque resiste à lógica do tempo e porque é tão grande, tão grande que nos ajuda a perceber algumas verdades fundamentais sobre a bondade da enofilia.

Manuel Carvalho
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