propriedade: Essência do Vinho
Logotipo Bluewine

Cronista

PAUL WHITE: «A alma perdida»

HÁ CINCO ANOS pediram-me para escrever um artigo irónico, para uma revista de vinhos australiana, antecipando como seria a indústria do vinho na Austrália em 2025. Sugeri que, por essa altura, o aquecimento global provocaria o fim das principais regiões produtoras dependentes de irrigação - Barossa, Mclaren Vales, Coonawarra, etc. Calculei também que as outras regiões seriam transformadas em campos de golfe ou complexos turísticos e de habitação, já que os seus solos seriam impróprios para a produção de uvas. As restantes regiões apenas sobreviveriam porque a actual confiança nas castas oriundas do norte de França seria substituída pelas originárias do sul da Europa, ou seja, de Portugal, Espanha e Itália, dado que nessas zonas as condições climáticas seriam mais favoráveis. Por fim, a adopção difundida de vedantes de rosca e de estilos e tipos de vinho previsíveis causaria um dano de tal forma irreparável que a Austrália se veria condenada à incapacidade de produzir algo que não fossem vinhos baratos e de baixa qualidade. Pois bem, escusado será dizer que o meu artigo não foi muito bem recebido.
Ainda que tenha exagerado, e até brincado um pouco, parece que cinco anos depois de ter escrito esse artigo muitos dos cenários se tornaram realidade. Os principais mercados de vinho australiano, Estados Unidos e Reino Unido, entraram em queda e aparentemente existe uma grande rejeição por parte dos consumidores. Para piorar, no “top 5” dos vinhos brancos mais vendidos na Austrália estão… vinhos da Nova Zelândia. Sendo muito aromáticos, leves e frescos, torna-se mais difícil que os consumidores australianos voltem a consumir vinhos mais elaborados e “pesados”.
Dada a escassez de água para rega, uma grande expansão das vinhas e um aumento de produção em larga escala, a indústria australiana de vinho está a pensar reduzir em 30% a área de cultivo. Os produtores, se tiverem a sorte de arranjar compradores, frequentemente vendem abaixo do custo de produção. Aliás, muitos cachos de uvas são deixados nas vinhas, por colher, já que não conseguem ser escoados para o mercado. Recentemente, duas vinhas historicamente importantes foram vendidas para serem transformadas em áreas de habitação. Empresas multinacionais de vinho estão a terminar com grandes marcas australianas e existe uma percepção de que muitas vinhas estão plantadas com castas consideradas insustentáveis. Cada vez mais, os produtores encontram nas espanholas Tempranillo, Graciano e Albariño, nas portuguesas Trincadeira, Touriga Nacional e Verdelho e nas italianas Montepulciano, Sangiovese, Nebbiolo e Fiano, a solução para uma melhor adaptação às condições climáticas locais. Durante duas décadas, a indústria do vinho na Austrália era aparentemente incapaz de cometer erros mas, com o passar do tempo, tem desgastado a quota de mercado no Velho Mundo e até na América do Norte. Muitos enólogos australianos têm trabalhado como consultores na China, América do Sul, Espanha, Itália, Portugal e França, alterando estilos de vinhos locais de forma a imitar as fórmulas do “Down Under” que anteriormente haviam funcionado muito bem – muita madeira, extracção, fruta madura, vinhos de cor densa, com taninos potentes e acidez vincada. De repente, os vinhos australianos perderam poder e confiança. Tenho lido dezenas de jornais que se referem à chamada “crise australiana”. Os jornalistas locais estão estupefactos porque, aparentemente, ninguém gosta mais de vinhos australianos.

COMO EXPLICAR A QUEBRA AUSTRALIANA?
Permitam-me recuar um pouco no tempo para tentar explicar o que está a acontecer. A Austrália expandiu o mercado entre 1986-87. Ao chegar primeiro ao mercado britânico, conseguiu converter uma nova geração de jovens consumidores. Como ponto de partida, os produtores australianos encheram um Boeing 747 com compradores e jornalistas, levando-os às regiões vitivinícolas para experimentarem, em primeira-mão, um “Néctar dos Deuses”. Recordo-me da perplexidade de um comprador ao ser confrontado por um produtor que lhe perguntara: “Que tipo de vinho quer que façamos para os seus clientes?” Isto acabaria por se tornar na principal imagem de marca da Austrália. O fim justifica os meios e o objectivo era criar um vinho homogéneo, de forma a ser degustado e apreciado, ano após ano, pelos consumidores. Através de uma manipulação tecnológica e química, o vinho era feito a partir de uma fórmula segundo a qual as castas se exprimiam de múltiplos modos. A ideia passava por misturar diferentes regiões para esbater as diferenças. Imaginem misturar Alentejo com a Bairrada e o Douro. A supremacia da Coca-Cola, como marca de confiança, apaga qualquer sentimento de tempo, lugar ou pessoas. Então, o que terá acontecido? A meu ver, o mercado que o vinho australiano criou simplesmente cresceu e ficou por aí. Enquanto novos apreciadores de vinho começam por querer apreciar vinhos frutados, com um sabor implacável e cheio de textura, os mais experientes apreciam a subtileza, o requinte. Ao criar uma marca, cria-se um valor e se isso não acontece, o vinho perde alma. As pessoas percebem-no e acabam por querer ainda mais. Resumindo, a grande questão que a Austrália enfrenta hoje é se vai ser possível recuperar o que sobrou da sua alma, antes que seja tarde de mais.

PAUL WHITE | Wine 43

(+) Crónicas
design@wallpaper.pt