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Cronista

JANCIS ROBINSON: «Em nome do planeta»

QUANDO VICTOR DE LA SERNA, produtor de vinhos e jornalista espanhol, me disse quanto iria pesar a sua produção de 2008 depois de ter optado por garrafas mais leves pensei logo que teria feito mal os cálculos. No entanto, assegurou-me que ao utilizar garrafas de 400 gramas, em vez da típica garrafa de 650 gramas, na Finca Sandoval, pequena adega na região espanhola de Manchuela, pouparia 20 toneladas de vidro e também a energia necessária para transportar esse peso extra.
No final do ano fiz uma reavaliação e cheguei a uma conclusão quando Nicola Jenkin, da WRAP - empresa britânica que ajuda outras empresas a reduzir material e a reciclar - revelou na Conferência “Wine Future”, na Rioja, a quantidade aproximada de vidro que a indústria do vinho gasta por ano: o equivalente ao peso de 49.000 Boeings 747 (Jumbo Jet).
No dia seguinte à enérgica palestra dirigida a quase um milhar de especialistas de vinho, oriundos dos quatro cantos do mundo, o director de uma das maiores empresas espanholas de vinho teve o seguinte comentário: “Bem, este género de intervenção não me parece ser a mais adequada”, acrescentando que “o vinho é um dos produtos mais naturais em toda a terra”. O comentário surgiu imediatamente antes de me ter mostrado orgulhosamente a sua nova cave de envelhecimento de vinhos, instalada no cimo de uma colina, embora a nível térreo, com 2.400 m2 de área e um pé direito de três andares, apesar de cada casco estar pousado no chão. O meu interlocutor admitiu que as contas de ar condicionado no Verão atingiam montantes consideráveis mas, mesmo assim, escapou-lhe a ironia de estar rodeado de inúmeras pequenas caves privadas cuidadosamente escavadas na encosta para usufruírem da vantagem das naturalmente mais frescas temperaturas aí existentes.
A indústria do vinho pode não ser a causadora dos maiores danos ambientais no planeta, mas precisamente porque o vinho tem gozado, até à data, a reputação de ser um dos produtos mais naturais em toda a terra, os agentes do sector devem fazer de tudo para preservar essa imagem - o que acaba por ser difícil, tendo em consideração diversas reportagens recentemente emitidas em canais de televisão que alertam os consumidores sobre o recurso a produtos químicos por muitos produtores, quer em vinhas quer em adegas. E, há quem considere que a atitude do consumidor vai mudar face a estas novas informações. Pelo que me tenho apercebido, o catalão Miguel Torres mostra grande dedicação a este tema, enquanto produtor de vinhos. Tem estudado o assunto pessoalmente, com pormenores admiráveis, e está convencido da necessidade de uma abordagem holística - desde conduzir um carro eléctrico até converter o dióxido de carbono das adegas, através de camas de algas, em biocombustível. Tenho seguido o seu (audacioso) percurso no mundo do vinho nos últimos 35 anos – desde a importação de castas francesas para Espanha, expansão para o Chile e para a China, muito antes da maioria dos seus pares – e estou cada vez mais impressionada com o que tem feito, mesmo sabendo que muitos outros produtores de vinhos (como por exemplo, a Cullen, da Austrália, a Parducci, da Califórnia, ou a Stratus, de Ontário) são conscientes de que as práticas agrícolas sustentáveis são apenas o começo.

ALTERAR PRÁTICAS PARA O BEM COMUM
Todos os aspectos de produção e distribuição devem ser radicalmente repensados. Como especialista em vinhos, a nível pessoal gostaria de sugerir que uma grande parte da floresta amazónica poderia ser salva se os publicitários do vinho dispensassem a enorme quantidade de papel e cartão que utilizam para informações à imprensa, embalagens, convites e folhetos. Estamos agora na era electrónica e, efectivamente, dispensamos uma página inteira por cada vinho, referindo quantos frutos um enólogo consegue detectar. Muitas vezes são feitos actos louváveis apenas por uma questão de bom senso, mas que não são necessariamente actos altruístas. Tal como disse Victor de la Serna, sobre a iniciativa de utilizar garrafas mais leves, “é mais barato e também não causa danos.” A Tesco, cadeia dominante de supermercados britânicos, normalmente não se compromete com algo de ânimo leve. Mas, tal como a maioria dos supermercados do Reino Unido, assinou o “2006 Courtauld Commitment”, uma espécie de acordo, baseado no de Kyoto, cujo objectivo é reduzir a quantidade de embalagens de tudo o que se vender, vinho incluído. Também assinaram esse acordo as empresas Constellation e a Foster’s Wine Group.
Devido à maioria dos vinhos vendidos no Reino Unido serem importados, na prática os produtores (muitas vezes proprietários estrangeiros de grandes marcas) têm de mudar as garrafas para umas mais leves ao exportar para o mercado britânico. Acabam por fazer o mesmo para todos os clientes, acabando por estender o efeito não só no Reino Unido mas também no resto do mundo.
Estes exportadores de vinho viram os resultados dos últimos meses com a introdução de novos tipos de garrafas e, agora, devem estar satisfeitos com as reduções de custos de transporte e garrafas, podendo até gabar-se com o que estão a fazer pelo ambiente. Sinceramente, suspeito que muitas destas iniciativas que estão a acontecer no mundo do vinho sejam mais um esquema de marketing do que de consciencialização, mas ainda assim são positivas, pelo menos a crer nos resultados apresentados.
Muitos produtores receiam que ao trocar para garrafas mais leves os seus produtos possam ser entendidos como de menor qualidade, isto porque existe a teoria de que vinho está mais seguro em garrafas pesadas. Mas, acredito que só é preciso um ano para os consumidores de vinho começarem a perceber o quão desnecessário é usar garrafas pesadas.
A tecnologia do vidro mudou bastante nos últimos anos, de modo que muitas destas novas garrafas são mais fortes e com menor probabilidade de se partirem. Actualmente, existem garrafas que pesam um pouco mais de 300 gramas, contra o ridiculamente cerca de um quilo, como verificamos, por exemplo, na Argentina. Aliás, gostaria de saber se o facto de o Chile recentemente ter aderido às garrafas mais leves, tem algo a ver com a tradicional rivalidade nos Andes.
Os chilenos estão a tornar-se líderes na América do Sul, com o uso de embalagens mais ecológicas, e a maioria das grandes marcas utiliza actualmente garrafas que pesam consideravelmente menos de 400 gramas.
A produção de vinho pode parecer ecológica, mas no Reino Unido e noutros países as garrafas de vinho representam o maior desperdício doméstico. O próximo passo é encontrar uma forma verdadeiramente eficaz de reciclagem de todas as garrafas vazias para a maioria dos países.

JANCIS ROBINSON | Wine 43

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