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Cronista

LUÍS COSTA: «Tchim, tchim Mr. Darwin!»

A DECANTER não será a melhor revista de vinhos do mundo, como pomposamente ostenta no seu cabeçalho, mas é sem dúvida um título incontornável no universo das “wine magazines” e um produto editorial de referência capaz de surpreender quem a compra habitualmente. E esse é um mérito fundamental de qualquer publicação periódica: mostrar capacidade permanente de surpreender os leitores, inclusive os mais exigentes e menos susceptíveis de se admirarem com pretensas novidades e segredos… de Polichinelo. Na minha quota de surpresa deste mês de Dezembro, a Decanter publica um interessante artigo do australiano Richard Smart, o mais afamado cientista da viticultura australiana, mundialmente conhecido como “Flying Vine Doctor”. Foi pelo texto do Dr. Smart que fiquei a saber que Charles Darwin, cujo bicentenário do nascimento é assinalado neste ano que agora finda, para além da celebrada teoria da evolução das espécies também deu alguns contributos ao mundo do vinho. Ora, o maior desses contributos está relacionado com o combate à praga da filoxera, pelo que podemos afirmar que o mundo do vinho tal como existe nos dias de hoje tem a indeclinável impressão digital de Darwin. Pouca gente sabe disto, como reconhece o Dr. Smart, a ponto de ele próprio ter surpreendido uma douta plateia da universidade californiana de Davis com a interessante revelação. E porquê? Provavelmente porque foi indirecto o contributo de Darwin para preservar as vides desse microscópico e devorador insecto que provoca danos irreversíveis nas suas raízes. Apesar do carácter indirecto desse contributo, a verdade é que sem o princípio da “evolução das espécies” de Darwin (mais apropriadamente, neste caso, do princípio da “adaptação das espécies”), nunca um grupo de investigadores franceses e norte-americanos teriam salvado a Europa da praga que assolou as suas vinhas na segunda metade do século XIX. Efectivamente, foi graças ao princípio da “adaptação das espécies” que se alcançou a solução para o mal que parecia ameaçar, para todo o sempre, a produção de vinho no continente europeu: como a filoxera veio dos EUA para a Europa, provavelmente através de outras espécies botânicas, e as vides norte-americanas estavam assim naturalmente imunes à doença (porque desde sempre viveram na presença do bicho), isso fez com que desenvolvessem naturalmente métodos para “reparar” os estragos provocados nas suas raízes. Daí ter surgido a ideia de se enxertar na vide americana (que não gerava, por si só, uvas com a qualidade necessária à feitura de vinhos) uma das muitas variedades de castas da vide europeia, a “vitis vinífera”. Feliz resultado: uma vide em que a parte enterrada, a das raízes – que é a parte da vide sujeita ao ataque do nefasto pulgão, pois é da seiva das raízes que ele se alimenta – é uma vide americana e, por isso, imune à filoxera; e a parte que dá o fruto da vide, que dá os bagos, é do tipo europeu. Assim nasceram os porta-enxertos americanos, por oposição às vinhas de “pé franco”, em que o “pé” da vide é genuíno, verdadeiro, franco. A verdade é que desde então, já lá vão mais de cem anos, o método tem-se revelado estrondosamente eficaz, apesar de a filoxera nunca ter sido erradicada. Razão mais do que suficiente para acedermos à sugestão do Dr. Smart: que todos os “wine lovers” do mundo façam um brinde ao aniversário do nascimento de Darwin. Por mim, tenciono fazê-lo na noite da consoada. Provavelmente, com o Vale Meão 2007. Ou com outro qualquer grande vinho português.

Luís Costa | Wine 42

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