PARECE que há décadas que os franceses em geral, e os produtores de vinho de Bordéus em particular, se têm lamentado do facto de terem tanta dificuldade em comunicar com os Media e os consumidores. O argumento é que têm grandes vinhos, mas os consumidores e críticos simplesmente não os entendem. Não são como aqueles vis produtores de vinho do Novo Mundo, que de alguma forma têm dominado as “artes negras” da comunicação. Ora, tenho uma sugestão muito simples para os franceses impressionarem os entusiastas do vinho em todo o mundo. E nem é nada caro - muito, muito menos do que as campanhas publicitárias genéricas que têm absorvido quantidades quase criminosas do dinheiro cobrado aos produtores pobres por toda a França para manter os seus organismos de promoção activos. A minha ideia envolve a mobilização de um atributo que os franceses têm e pô-lo a trabalhar para melhorar a imagem dos vinhos franceses em geral. Nas instituições académicas em geral, e nas universidades de Bordéus e Montpellier especificamente, há dezenas de pesquisadores que trabalham na vanguarda da ciência do vinho. Montpellier tem sido desde há décadas o berço da investigação do sector vitivinícola. A Faculdade de Enologia de Bordéus deu origem a nomes como o falecido professor Emile Peynaud, pai da viticultura moderna; a dupla, pai e filho, da Ribéreau-Gayon, cujo trabalho é conhecido por gerações de profissionais do vinho; o mais famoso consultor de enologia do mundo, Michel Rolland; o padrinho da enologia moderna de vinhos brancos, Denis Dubourdieu; Paul Pontallier, do Château Margaux, cuja tese académica se baseou no envelhecimento em casco, etc., etc.
Estas pessoas e os seus sucessores têm uma extraordinária riqueza de conhecimento sobre vinho. Os consumidores e críticos de vinho de hoje estão mais interessados que nunca na minúcia da ciência do vinho. Assim sendo, por que não usar os académicos do vinho de França para divulgar alguns dos seus conhecimentos de forma mais ampla, reforçando assim a imagem do vinho francês em geral?
Claro que seria preciso planear um pouco. Não vale a pena apresentar um cientista introvertido, sem capacidades de comunicação, e sugerir que ele dê uma palestra sobre uma investigação especialmente complexa e nebulosa, que não terá qualquer relevância para os consumidores de vinho. Mas existem dezenas de tópicos que têm de ser estudados nas academias francesas, sobre os quais os entusiastas e críticos de vinho estão curiosos: as diferentes castas e o seu relacionamento entre si, o “terroir” e a sua influência, a fisiologia da uva e como isso afecta o sabor do vinho, leveduras e os seus efeitos, extracção e técnicas de gestão dos taninos, o papel do oxigénio, os vários tipos de carvalho e outros materiais, a forma como o vinho envelhece, tipos de vedantes... Podia continuar, mas realmente gostaria que os cientistas partilhassem mais dos seus conhecimentos connosco.
UM EXEMPLO A SEGUIR
Como este processo não tem de ser monótono e até pode melhorar a reputação da indústria do vinho, ficou demonstrado a um grupo de profissionais do vinho britânicos, em Junho passado, quando Con Simos, um rapaz simpático que preenche uma espécie de papel de embaixador do principal corpo académico australiano, o Australian Wine Research Institute (AWRI), veio a Londres para nos ensinar a todos como provar vinhos. Exagerei um pouco, é claro, mas apenas ligeiramente…
Na Austrália, os factores importantes para melhorar a qualidade do vinho foram a eliminação sistemática de falhas técnicas e a criação de uma academia de “juízes” do vinho, equipas de provadores altamente qualificados, que podem ter um desempenho previsível e coerente nos importantes “wine shows” destinados a premiar os melhores vinhos da Austrália e orientar as tendências de vinificação - é provavelmente devido, em grande parte, ao sistema de “shows” que a Austrália tem sido capaz de reagir de forma tão rápida às exigências do consumidor, como por exemplo menos aroma a carvalho no vinho ou Chardonnays alcoólicos.
O AWRI orgulha-se de ser particularmente próximo da indústria do vinho e das suas necessidades específicas, tendo desenvolvido um curso sistemático de quatro dias (Advanced Wine Assessment Course - AWAC) destinado a produzir provadores de vinho de confiança e melhorar a capacidade de prova das pessoas que trabalham na indústria. O curso ensina as pessoas sobre as suas próprias sensibilidades pessoais e, talvez ainda mais útil, as suas insensibilidades. E também, “en passant”, constitui uma contribuição vantajosa para os cofres do AWRI, que cobra caro por esses cursos na Austrália.
Em Londres, a 30 de nós foi-nos dada por cortesia uma versão comprimida de um dia do curso. O objectivo era demonstrar algumas das falhas mais comuns do vinho (além de pelo menos dois, Indole e Chlorocresol, sobre os quais nunca tinha ouvido falar). O mais relevante, para aqueles de nós que não eram enólogos profissionais, é que o curso foi idealizado para melhorar a nossa consistência. Foi-nos servida, em prova cega, uma gama de brancos e de tintos, mas composta por “duplicados”, alinhado ao acaso, que serviu para demonstrar o quão influente pode ser a posição de um vinho dentro de uma determinada ordem de prova. Pode-se argumentar se a Academia do Vinho Australiana passou demasiado tempo a eliminar falhas, não incentivando suficientemente a individualidade. Mas nenhum participante neste curso da AWAC sentiu outra coisa senão um respeito reforçado pelos vinhos australianos e pela ciência do vinho.
Da mesma forma, quando o AWRI publicou os resultados da sua pesquisa sobre os efeitos de diferentes vedantes no envelhecimento do vinho, toda a indústria de vinho na Austrália beneficiou da glória de um estudo que continua a ser um dos poucos no domínio público a dar uma perspectiva academicamente respeitável e imparcial, embora um pouco desactualizada, do desempenho da rolha natural, sintética e “screwcaps”. Estou certa que, dentro dos laboratórios e salas de aula de muitas outras instituições académicas, sobretudo em França, se esconde todo o tipo de conhecimentos fascinantes sobre o vinho, que nos deixaria, a todos os que amamos o vinho, extremamente impressionados.
Aconselho os franceses a partilharem mais os seus conhecimentos connosco. Denis Dubourdieu é um dos poucos académicos de vinho franceses a viajar muito e a apresentar um rosto humano para a “vintelligence” avançada - e suspeito que ele faz isso, principalmente porque, como um produtor de vinho (CHX Reynon, Doisy Daëne, etc.), precisa de viajar para vender os seus próprios vinhos. Gostaria de ver uma abordagem mais sistemática e eficaz, para incentivar os franceses a explicarem-nos o vinho.
JANCIS ROBINSON | Wine 41