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Cronista

LUÍS COSTA: «Japonês… e vinho»

NO NARIZ, sentem-se aromas de cedro e figos secos. Revolve-se o copo uma vez mais, na busca de outros aromas e de novos apelos, e percebem-se laivos de mel com alguma uva passa – mas esta mais ao longe, como nota de requinte num vinho ainda jovem, muito jovem mesmo, à espera do tempo que há-de domar-lhe a pujança e o vigor algo excessivos. Ainda antes da comida, porque o nariz assim convida, levamos o copo à boca e vemos que o sabor persiste, ficando por ali a rondar, sem querer ir-se embora. Surpreende-nos a frescura imensa deste vinho tinto, num contraste quase paradoxal que o nariz maduro, quente e envolvente não deixava antever.
É nestes momentos que o apreciador de vinho sente um prazer envolvente, que parece encher-nos o corpo e a alma, quando temos uma agradável surpresa como este Vértice 2007, que não deixa apagar-se pela madeira dos 16 meses de estágio e exibe orgulhosamente a identidade duriense no tríptico Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz.
No embate seguinte, quando partimos para uma pouco ortodoxa harmonização, o prazer torna-se redobrado graças à mestria do escanção Manuel Moreira conjugada com a arte culinária do chefe Paulo Morais. No restaurante que muitos já consideram ser um dos “santuários” portugueses da comida de inspiração oriental, no portuense Góshò, junta-se o Vértice tinto 2007 a um arrojado conjunto de ensaios em carne barrosã DOP, embora aptos a serem degustados com os inevitáveis pauzinhos: tataki com escabeche de legumes e pêssegos; espetadas panadas recheadas de ameixas secas sobre puré de fruta vermelha madura; e medalhão grelhado com redução do próprio Vértice 2007 e onigri de yakimeshi assado. Talvez embalado pela companhia do enólogo Celso Pereira, felizmente um homem do vinho pouco convencional, resolvo prosseguir na heterodoxia, furo o protocolo do jantar e recupero um vinho que já tinha ficado para trás, o Quanta Terra branco 2007, uvas de quatro castas (Gouveio, Códega do Larinho, Rabigato e Viosinho) fermentadas em barricas de 500 litros, que funcionou tão bem nesta parceria – ou ainda melhor, confesso-vos – como havia funcionado no “amuse bouche” de rolo de massa chasoba com vieiras, cogumelos shimeji e maracujá sobre salada de algas wakame e sésamo. Neste jantar vínico, houve ainda oportunidade e pretexto para reencontrar velhos amigos desta paixão enófila comum, deliciar-me com um “sushi to sashimi” irrepreensível e actualizar algumas informações sobre o mundo do vinho. Por exemplo, fiquei a saber que Celso Pereira e Carlos Campolargo viram chumbada a designação que pretendiam atribuir ao seu projecto comum de produzir um espumante Pinot da Bairrada e do Douro, com vinificações meio por meio em ambas as regiões demarcadas, e que deveria ser CCCP – a antiga sigla da extinta União Soviética, mas que neste caso também queria dizer Carlos Campolargo Celso Pereira. Paciência. Ficou pelo caminho a curiosa designação mas sobreviveu o projecto, que já vai na sua segunda colheita, embora sem ter sido ainda lançado qualquer vinho – o que só abona a favor do profissionalismo e rigor do projecto e de quem o protagoniza. O mesmo profissionalismo, rigor e arrojo de Jorge Costa, que na sua vida de deputado da Nação ainda arranjou tempo e coragem para lançar um restaurante que parecia impensável há dois anos: porque é japonês, porque tem 100 lugares, porque fica numa cave, e porque é no Porto. Mas que, afinal, bem podia ser em Nova Iorque.

Luís Costa | Wine 38
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